Queria escrever uma crônica para os que passaram um carnaval triste. Para os que acordaram na quarta-feira cinzenta, sozinhos outra vez, com gosto de semana passada na boca. Para os que, inicialmente tímidos e depois desesperados, viram seu amor-próprio desmoronar à medida da seqüência inevitável de rejeições, de tocos, de não-me-toques, de olhares gélidos lançados pelas colombinas, indiazinhas, diabinhas e bailarinas.

Uma crônica para o exército de reserva dos tamborins, para os coadjuvantes fora de quadro, para os que perseguiram o encontro e, mesmo abandonando o que conheciam por critério, acabaram a folia com um zero a zero estampado no placar e na testa. Para todas as moças que se perfumaram e fantasiaram, e dançaram com samba no pé, e distribuíram olhares, e viraram o pescoço, e imaginaram tanto… E nenhum único vem cá meu bem. E nada.

Escrever uma crônica dedicada aos pierrôs que descobriram seus amores nas mãos do alheio, a boca aberta em outra, fazendo gargarejo com suas lágrimas. A todos os que flagraram a desejada beijando lividamente um anônimo arlequim, entre centenas de corpos em movimento, sob uma tempestade de confetes e a batucada acelerada de um bloco que, a partir dali, ganhará um sentido de vertigem insuportável. Uma crônica aos que sofreram as insídias do amor durante o carnaval nublado, e que tudo viram com olhos metafísicos, numa percepção aguda da realidade que o latão de cerveja quente jamais vai mitigar.

Aos bêbados que choraram confissões às sombras nas paredes. Aos que lamberam a calçada, beijaram o poste, abraçaram o gelo-baiano. Às mulheres que por aí esqueceram calcinhas e partes irrecuperáveis de si. Aos foliões reflexivos que, no meio do refrão, pararam e se perguntaram: “afinal, o que diabos estou fazendo aqui?” Ao ritimista que atravessou, levou um pescotapa do mestre e foi expulso da bateria no meio do desfile. Aos que se sentem distantes de tudo, mesmo no meio de uma muvuca atroz no Terreirão do Samba da Praça Onze. Aos que foram barrados na porta do camarote da cervejaria. Às passistas de corpo esculpido carregando as flechas de tantos olhares sabendo que nenhum, nenhum deles, realmente a quer de verdade – pois elas, como todas as mulheres, são outras que nenhum, nenhum deles, jamais conhecerá.

Aos melancólicos senhores e senhoras com os cotovelos apoiados nas janelas de Laranjeiras, a quem o carnaval faz lembrar certa pureza esquecida, de bailes em Paquetá, de lança-perfumes e marchinhas de uma cidade que não mais existe – de uma vida que se aproxima do fim. Aos persistentes infelizes por vocação que lotaram salas refrigeradas de cinema, livrarias e cafés tentando fingir que o carnaval não existiu.

Uma crônica que faça uma homenagem aos rebaixados na passarela, que preste tributo aos que tiveram o samba derrotado, que dê consolo aos turistas que foram assaltados e esculachados na cidade maravilha. Um alento aos fracos que desistiram da multidão do Bola, que tiveram medo da Rio Branco noturna do Cacique, que afrouxaram a garganta no único momento que poderia lhes salvar do carnaval triste. Uma crônica que tire um pouco do peso daqueles para quem o término do carnaval é sinônimo de nada mais restar, é caldo de fim de feira às margens do precipício, é tristeza e medo pelo que virá no resto do ano. Porque o ano, depois do carnaval, é resto. É o pouco que sobra.

Acabou, e sempre acaba cedo demais, chega rápido o último dia. Depois, só no ano que vem. Já acabou: as cinzas de quarta-feira caem sobre nossa última dança. Os ambulantes arrastam seus carrinhos, as baterias recolhem suas peças, o eco das notas do samba derradeiro flutua sobre nós. Sob o grave de um surdo solitário, acaba o carnaval. Já limpam as ruas, os carros já vêm. Calam os subúrbios escuros. Calam as avenidas fechadas. Calamos nós. Acabou. Logo amanhece, e já não seremos mais quem fomos. Como agora, sem carnaval, vamos nos justificar? E até o próximo, o que será de nós?

Uma nuvem negra se aproxima do céu de Ipanema. É uma caravela da qual vemos apenas o casco escuro, como se estivéssemos deitados no fundo do mar. A sombra da nave imprime cinza sobre um recorte diagonal da praia. Fora das fronteiras móveis da zona escura, a areia ainda brilha, crepitando sob o sol. De frente para ele, tento ler um livro. Fracasso. As páginas se debatem com o lufar de um vento súbito. Suas palavras se embaralham.

Em poucos segundos, o deslocamento de ar ganha força. A direção das rajadas agora é indefinida, elas se alternam vindo de todos os lados num jogo imprevisível. E levantam pequenos papéis, copos e sacos plásticos que flutuam uns contra os outros. Uma fina camada de areia se desloca do solo, corre suspensa rente às pegadas misturadas de quem já não está mais ali. No mar, as ondas quebram forte, deixam por trás de si um rastro de espuma branca parado no ar.

A praia agora é um ambiente grave, como se algo de inadiável estivesse a acontecer. Todos se apressam, recolhem suas cangas, barracas e cadeiras rumo ao calçadão. Os barraqueiros despejam apressados o gelo dos isopores na areia. Há um espocar de luz, ouve-se um trovão. Pingos grossos começam a cair sobre a areia, sobre meu rosto, sobre as frases do livro aberto.

Em instantes, me vejo só na praia. As gaivotas parecem ter perdido a direção, voam em círculos contra o vento errático. A nuvem agora estaciona sobre a minha cabeça e, finalmente, depois de um instante de silêncio profundo, ouço o som do primeiro bloco d’água caindo sobre o chão.

No fim de tudo, fora do domínio da chuva, as Ilhas Cagarras continuam iluminadas, dando um contra-tom pastel à cortina de chumbo que agora cobre o mar, a areia, os pedestres em fuga. Aqui, as gotas tamborilam sobre as páginas do livro aberto num pipocar agudo, como numa máquina de escrever acionada por dedos leves e muito rápidos. A areia se transforma numa multidão de minúsculas explosões e crateras cor de argila. Nela, enterro os pés frios.

Escurece rápido, e os faróis dos carros acendem-se na avenida: os riscos da chuva no ar opaco são iluminados pelos faróis brancos dos carros que chegam, pelos traços brilhantes e vermelhos dos que vão. Atrás da via, os prédios da orla desaparecem. A cidade inteira se desfaz, quarteirão após quarteirão.

Até o fim do temporal, o movimento de tudo será lento e pesado. Meus pés, fincados na areia cada vez mais dura, estarão presos. As letras nas páginas do livro ficarão borradas, sua tinta preta escorrerá pelos meus dedos, até que elas se transformem em amontoados de traços nebulosos. A matéria do mundo se tornará inominável.

Mas, em algum momento, o morro Dois Irmãos ganhará por trás de si uma fonte de luz azulada. Nuvens cor de sangue terão espaço naquele céu, e a caravela negra se transformará numa lembrança irreal. Os automóveis apagarão seus faróis (ainda será dia), e a cidade submersa se reconstruirá, quarteirão ante quarteirão.

Depois da chuva, desejo apenas que o sol ainda seja suficiente para evaporar as poças da calçada. E secar a tinta dos meus dedos.

Antes que a noite novamente caia sobre nós.

É noite e é a Lapa. Acompanhado por um cortejo de fiéis, saio do Nova Capela carregando a donzela com a mão esquerda e um saco plástico com a direita. Tenho o hábito suburbano de pedir a quentinha quando sobra comida na mesa – especialmente quando se trata do cabrito do Capela.

Mesmo que não vá comê-lo depois.

É o que normalmente acontece numa cidade onde o próximo passa fome. Na Rua do Riachuelo, quase sob os Arcos, sou interpelado por um sujeito. É um negro gordo, descalço e sem camisa. Pede um trocado, está com fome, desde ontem sem comer e o remédio que o governo… Numa reação instintiva, desvio o olhar, dou-lhe um drible de corpo e uma passada larga. Mas lembro da quentinha e paro.

Você quer? É cabrito. A expressão no rosto do homem se transforma. Estendo o braço, ofereço o saco plástico, o cabrito flutuando dentro de uma cápsula de papel alumínio. Do Capela? O homem me pergunta num tremor de comoção. É do Capela, ainda está quente, respondo. O tom atrevido do primeiro pedido já não existe. Agora o sujeito me encara com o olhar das senhorinhas ao santo padre.

O senhor é um sujeito iluminado. Eu estava aqui na maior necessidade e agora um cabrito… Muito obrigado. Saiba que tem aqui um amigo. Um novo amigo! Qual é o seu nome? O homem mistura as frases umas nas outras, agarra meu antebraço com a mão inchada. A donzela e meus velhos amigos já estão algumas dezenas de metros adiante. Quando olham para trás, se perguntam: estará louco?

Aqui, o homem insiste: qual o seu nome? Eu respondo. Ele me estende amão. Não se nega cumprimento a ninguém – e mão suja por imunda, já beijei piores. Meu nome é Luiz Alberto, e o senhor é um homem bom,repete e cresce para mim num abraço salpicado de areia.

Eu queria fazer um pedido ao senhor, me pergunta já com a posse definitiva dos restos do cabrito. É que a minha vida está numa pior. E agora me encara com os olhos injetados, as pupilas escuras como duas ilhas Cagarras num mar de sangue. Eu queria fazer um pedido, com toda a consideração ao amigo. Ao senhor amigo. É que o senhor não sabe as coisas que me acontecem. O senhor não imagina.

Agora, o homem já me constrange. Sua insistência me dá pena e certa irritação. Quando percebo que estou irritado, me sinto instantaneamente culpado – e mais constrangido. Quero sair dali, continuar meu périplo pequeno-burguês por bares sujos como a mão que o homem me oferece, e penso nos meus amigos e na donzela, imagino que já tenham se esquecido de mim, que tenham virado a esquina da Joaquim Silva e me deixado para trás – o que cedo ou tarde há de ocorrer, mas que não seja hoje, que não seja agora.

Começo a ir, a separar nossas existências em definitivo, ando de costas num passo ridículo, estico o pescoço para enfim ouvir o que quer o novo dono do cabrito, imaginando que jamais irei atendê-lo. E ele faz o pedido final, absoluto: ore por mim, senhor.

Luiz Alberto é meu nome. Não se esqueça do meu nome: Luiz Alberto. Ore por mim hoje à noite, senhor. Eu preciso. E o senhor não sabe. O senhor não imagina como eu preciso. Ore por mim. Não se esqueça…

Desapareço na sombra dos Arcos, jogo um aceno triste ao homem e sufoco o desejo de pedir ao Luiz Alberto que também ore por mim.

Foi num dia daqueles em que o centro fica vazio e o pessoal do escritório joga papel picado pela janela. Final do ano e do expediente. Você apareceu, sorriu meia dúzia de amigas e sentou na mesa ao lado. Bebeu cerveja de garrafa e comeu amendoim, cabelo preso num coque. Depois de você ali, a cidade calou. No meio do povaréu, pude ouvir seus dentes quebrando os amendoins, goles descendo pela sua garganta, cílios se roçando num piscar de olhos.

Sua chegada condenou toda aquela gente a morte instantânea.

Naquele momento, fiquei sabendo de tudo. Que iríamos nos conhecer em cerca de meia hora, quando eu me levantasse para tentar falar bonito, entre goles e nossos olhares de espadachim. Sabia que treparíamos poucos dias depois como dois desesperados, pais de filhos natimortos, nos enlevando como quem precisa. Fiquei sabendo, olhando para você na outra mesa, que nossa persistência mútua seria comparável a teimosia de ditadores, cães loucos e donas de casa. Que nosso amor arrancado a fórceps seria perdido para ser encontrado depois, reencontrado depois, muitas vezes, quantas vezes fosse preciso.

Sabia que brigaríamos como nunca fizemos com ninguém antes, e nos xingaríamos de nomes que você teria vergonha de contar até para si mesma. Mas depois faríamos as pazes, doentes de paixão. Bêbados, dançando e rindo do que só nós dois poderíamos entender. Trocando a noite pelo dia, trancados por semanas em casa, ouvindo música, vendo filmes, dormindo abraçados. Sabia que, rapidamente, ganharíamos intimidade: banheiro de porta aberta, beijo sem escovar os dentes, você fazendo café de calcinha. E sabia que você diria, alguns meses depois, que eu era o melhor amante que você já teve. E que nunca mais iria querer outra pessoa.

Antes de você terminar a cerveja do seu copo, eu já sabia como iria gostar de ouvir todas essas mentiras.

E como iria te retribuir com outras.

Mesmo assim, apesar e por causa disso, ficaria ciumento e obsessivo como um psicopata de cinema. Faria perguntas insidiosas sobre seu passado, ex-amantes e namorados. Sobre quem te levou para a cama, e quem te deixou lá. Descobri que ficaria com taquicardia e mãos trêmulas ao imaginar você com outra pessoa, no futuro ou no passado. Descobri que você iria despertar o meu melhor e o meu pior, em proporções igualmente febris. E que também iríamos superar isso.

Você me ensinaria, com seus modos calados, a viver melhor. Tomar banho lavando as costas, comer várias vezes por dia, pensar menos. Você iria combater meu impulso suicida contra o nosso amor. Não sei se você chegou a descobrir isso ainda, mas não é que o amor simplesmente acabe. O amor é morto em dias claros como esse. Carrega em si a semente desse assassinato. Às vezes o crime é culposo. Em outras, cheiramos a fumaça que sai do buraco da bala com prazer dissoluto. Mas o normal é que seja morto corriqueiramente, como um tropeço. Com você seria diferente. Descobri, só de olhar o jeito do cabelo cair na sua testa, que você lutaria até o fim para que eu não esquartejasse o nosso amor. Você iria conseguir.

Sabendo disso tudo, foi como se não tivesse escolha. Deixei uns trocados na mesa, levantei e lancei um último olhar na sua direção, já quase virando a esquina. Em alguns meses, esqueci dos seus olhos verdes e, com eles, tudo que descobri, em não mais que cinco segundos, num dia daqueles em que o centro fica vazio e a gente do escritório joga papel picado pela janela.

O amor é morto em dias claros como esse.

Quando digo que o Rio de Janeiro é uma cidade cuja população é formada inteiramente por madames, príncipes e celebridades de primeira grandeza, todos apontam os olhos para mim com a mesma interrogação nas sobrancelhas: estará louco? Outra vez?

No entanto, digo que essa é mais pura das verdades. Da viúva do general até o lixeiro, passando pelo caixa do banco, o diretor das empresas, o jornaleiro, o advogado, o camelô, o santo padre e o mendigo: todos os cariocas nasceram para brilhar, sem qualquer exceção, como estrelas do cinema, garçons do Jobi ou vedetes do rádio. Algo haverá nessa terra, desde sempre iluminada pelas mais extravagantes riquezas naturais e nobiliárquicas presenças, que faz de seus personagens seres tão especialmente bem-aventurados.

No Rio nada acontece por acaso. Tudo é cena, e jogo de cena. Aqui, um prestador de serviço qualquer não é simplesmente um funcionário que bate à porta do apartamento para consertar o aquecedor.

Ele é “Serginho Ferraz”, compositor destacado da comunidade do Encantado, fidalgo com ascendências nas mais importantes linhagens de Oswaldo Cruz, tocador de tantã e pagodeiro de fundo de quintal nas horas vagas (ou, melhor dizendo, nas horas vagas é que atua como “técnico executivo autônomo do ramo de combustível natural doméstico”).

Ela, que corre pela sala calçando chinelinhos e agora destranca a papaiz, é “Vanessa Machado”, nascida no ano da Copa da Itália, ipanêmica gatinha bronzeada, todas as horas e pensamentos vagos, freqüentadora das mais altas rodas de altinho do Nove-e-meio, cujo fotolog bate recordes sucessivos de visitação e comentários.

E aí está: o encontro de duas estrelas.

Mas os dois, desconfiados e blasés, fazendo pose para as câmeras e se enxergando de ladinho, não se tratam como tal. Porque a estrela do carioca é tão grande que só pode brilhar sozinha. E é por isso que existe o mito de que estamos acostumados à gente famosa, e que os artistas podem andar tranqüilamente pelas nossas ruas, sem a compulsória distribuição de autógrafos, fotografias e tchauzinhos.

Na verdade, não damos muita bandeira aos famosos porque todo carioca é, também, um famoso, uma distinta criatura cuja biografia é escrita à medida que ganha as calçadas, sejam elas as do mundo encantado do Leblon, do sopé do morro, ou das ruas modorrentas de Botafogo e do Grajaú. Não importa o bairro, a conta bancária, a ocupação ou o tipo físico: todos nós estamos perpetuamente condenados à consagração.

E ao cercadinho VIP.

Eu, Eduardo Marciano

Por João Paulo Cuenca e Eduardo Marciano

Muito antes de ser Don Quixote, Sal Paradise, Holden Caulfield, Jake Barnes, Joseph K., Raskolnikoff, Guido Anselmi, Stephen Dedalus, André ou Alberto, fui Eduardo Marciano. Antes mesmo de saber quem era Eduardo Marciano, eu já era Eduardo Marciano. Nasci Marciano em 1978, vinte e dois anos depois da publicação da primeira edição de “O Encontro Marcado”. Só descobri minha verdadeira identidade aos doze, quando engambelei uma freira durante o recreio e surrupiei o “Encontro”, um dos livros proibidos da biblioteca do colégio. Além de um nome, ganhei palavras para definir a angustia que puxava sem saber. Não estava mais sozinho. Naquela mesma noite, decidi o que queria fazer da vida. Afinal, eu era um Eduardo Marciano. E Eduardo Marciano era um escritor.

Eu, Eduardo Marciano, inúmeras vezes me perdi e descobri nas páginas do romance. Com o passar dos anos, notei que continuava sendo um Marciano, e cada vez mais Marciano, de formas inesperadas e oblíquas. Consultar o “Encontro” se transformou numa espécie de mitologia pessoal, como se o livro fosse um oráculo. Às vezes o abro numa página ao acaso. Em outras, releio do início ao fim, de enfiada. Cada leitura me diz algo diferente, mas sempre espicaça minha alma ofegante de Marciano que se encontra do outro lado do espelho.

Nada fácil isso de ser Eduardo Marciano, eu.

Eu, Eduardo Marciano, que planejei, mas não tive coragem de quebrar o lustre na porta do colégio no último dia de aula. Eu, dividido entre o desejo e o nojo, a ânsia de pureza e a repulsa a mim mesmo. Eu e meus pressentimentos de ruína, morte que tantas vezes dormiu ao meu lado. Eu que sempre pude ouvir a respiração da morte. Eu me equilibrando em viadutos com meus amigos bêbados, escritores sem livros, músicos sem discos, cineastas sem filmes, conversando por citações, atuando como lordes pândegos sem um tostão no bolso, trocando os dias pela noite e as noites por coisa alguma. Ou então, sozinho, ao longo da praia, me sentindo um miserável e tudo inútil, vazio, inócuo, despropositado – sórdido. Eu que já me vendi barato, precisando ser alguma coisa na vida, preferindo me arrepender pelo que fiz do que pelo que não fiz. Eu, mais capaz de me fazer amado do que de amar. Eu que já ouvi tantas vezes que pareço estar indo para algum lugar que não é aqui para me encontrar com uma pessoa que ninguém conhece. Eu, o puro, o escolhido, o que não se contamina. Eu que trago em mim o germe do pecado e da podridão. Eu e minha culpa maior do que o mundo. Eu e meus encantamentos românticos infantis. Eu, cheio de arestas que ferem sem querer. Eu que vivo e ando depressa demais, esbarrando indiferente em quem passa por mim. Eu, Eduardo Marciano, que tanta nostalgia carrego dos lugares onde nunca estive, das coisas que nunca cheguei a fazer. Eu que nunca me senti satisfeito ou completo. Eu que tanto nadei contra mim mesmo em piscinas vazias. Eu, eternamente constrangido com a vida. Eu que já nasci velho.

Eu e meus acessos de pânico, taquicardia e vertigem. Eu e o chão que me falta, a eterna negação de mim mesmo. Eu, Eduardo Marciano, e o vórtice negro. Eu sozinho no meio de uma multidão, fora do tempo, perdido. Eu que idealizo meu enterro, sempre na rua até tarde da noite, gastando o tempo com quem desconheço. Eu me perguntando se acredito mesmo em Deus, ou em mim mesmo. Eu e a recorrente sensação de que tudo isso já aconteceu, com uma expressão de déjà vu costurada aos olhos.

Eu e minhas pretensões de sacrifício: escrever é renunciar, não se deter diante de nada, não respeitar nada, os que tem nojo fracassam, é preciso ter pulso, é preciso ter estômago, a literatura é como se você tivesse que renunciar a todos os caminhos etc. Eu que já rasguei tantas idéias antes mesmo de levá-las ao papel. Eu assombrado pela constante sensação de que perdi alguma coisa e que fiz a escolha errada. Eu querendo me libertar do meu destino. Eu, Eduardo Marciano, que estou na verdade em algum ponto lá atrás, pensando na minha vida de agora como uma possibilidade remota. Eu que sempre estive muito longe de onde deveria estar. Eu que estou sempre partindo: sou a sombra desse outro que caminha pelas ruas e que me desconhece. Eu que passo meus dias com as mãos vazias, buscando por ele, para depois perdê-lo e novamente encontrá-lo. Eu, Eduardo Marciano, sempre começando, fazendo da interrupção um caminho novo. Eu, Eduardo Marciano, sempre recomeçando, acalentando o sentimento de que algo novo se anuncia. Eu, mais um Eduardo Marciano, nascido em 1978, vinte e dois anos depois da publicação da primeira edição de “O Encontro Marcado”.

 

Certa vez, no Cairo, me hospedei na casa de um egípcio descendente de tchecos. Esse amigo tinha dois filhos italianos com quem falava francês, italiano e árabe – uma língua para cada situação. Broncas em francês e brincadeiras em italiano.

Nunca fui capaz de entender o que diziam em árabe.

Na minha primeira noite na cidade, fomos com as crianças para um canto do Cairo islâmico, rumo a uma casa de chá que, depois descobri, ficava no meio da rua. Rua talvez seja a palavra errada: essa parte da cidade é em grande parte formada por vielas medievais de barro, com traçado torto e nenhuma direção aparente – dias depois, sozinho, me perdi ali por horas de sol na cabeça. O chá é preparado sobre uma bancada improvisada no meio da passagem. Sentamos em tocos de madeira e fomos saudados pelo garoto que já esquentava a brasa dos narguilês.

Sob os nossos pés, corria um filete malcheiroso de esgoto. Ali não há saneamento, postes de luz ou calçada. Crianças voltam do trabalho, carregando peças de metal sobre as costas, equilibrando os pés descalços sobre o chão de terra. As janelas das casas, muitas vezes improvisadas ao lado de estruturas semi-destruídas de mesquitas com mais de quinhentos anos, lançam sobre nós toneladas de música árabe. Música e, cinco vezes ao dia, o adhan, chamado para a oração que ecoa sobre a cidade. Tudo é barulhento e alegre, a despeito de um ou outro olhar opaco das moças que passam com o rosto coberto por burcas negras.

Os filhos do meu amigo começam a brincar com os moleques do lugar, como se já os conhecessem. Eles, limpos e ocidentalizados. Os locais, sujos de barro e graxa dos pés a cabeça. Os sorrisos são sinceros, e a diversão também. Não há desconforto ou olhar atravessado nessa amizade recém-conquistada. O pessoal do quarteirão se aproxima e, quando descobre que sou do outro lado do mundo, me cumprimenta com orgulho. Tentamos falar algo em inglês, aprendo uma palavra ou outra em árabe. Ofereço a eles meu narguilê, compartilhamos o chá, e ficamos ali em paz até bem depois da meia-noite. Voltamos tranqüilos.

(Essa tranqüilidade não durou muito, porque, no dia seguinte, cometi a proeza de me perder andando de cavalo no meio do deserto. Culpa minha, não do Egito, certamente um dos lugares mais seguros do planeta.)

Por que me lembrei dessa história? É que, ontem, andando em Ipanema, vi a mãe típica do bairro levando seu filho pela mão, flanando em frente às vitrines. Um menino de rua de uns cinco anos de idade, mascando uma chupeta suja, se aproximou para pedir qualquer coisa e a mãe ipanemense, numa reação automática, deu um puxão violento no braço do filho. O garoto bem nascido chorou. O menino de rua ficou encarando o chão.

Certos olhares, na nossa cidade, não podem se cruzar.

***

Quando esse exemplar estiver sendo arremessado contra a porta dos assinantes do jornal, estarei sobrevoando o oceano rumo à Tóquio. Nos últimos meses, gastei parte do meu dia com exaustivas pesquisas na internet e em guias de viagem sobre o meu destino. Não cheguei a nenhuma conclusão: segundo os relatos, ou os japoneses são extremamente gentis e praticamente carregam os turistas pelos braços, ou são xenófobos que maltratam e xingam os gaijin de nomes, para nós, incompreensíveis. Diz-se que todos falam inglês, e também que ninguém fala inglês. Diz-se que são liberais e cosmopolitas, mas extremamente conservadores. Sua cultura é ancestral, mas hoje vivem o nosso futuro. Nada deixa de me parecer contraditório e fascinante, e é com ingenuidade e vertigem nos bolsos que embarco para trinta dias no Japão, onde pretendo escrever as próximas colunas. Aos leitores do jornal residentes em Tóquio, peço encarecidamente dicas sobre tudo e qualquer coisa no email: joaopaulocuenca@gmail.com .

“Qualé, rapá! Entraê! Tá com medinho, é? Playboy tem que ficar mermo em casa!” Era o quarto vagão de metrô lotado que o bucha deixava passar. Como milho em conserva, milhares de contribuintes se espremiam para ver o aguardado show do Wando internacional em Copacabana. Muitos deixaram para lá, mas o bucha é como o brasileiro do comercial: não desiste nunca.

Pegou um táxi e quarenta minutos de engarrafamento. Saltou na Rodolfo Dantas, onde o panorama era desalentador. Ruas tomadas por hordas enfurecidas, bondes do terror, gritaria, assaltos, mulheres chorando, correria e gente mijando por toda a parte. Parecia uma pintura do Hieronymus Bosch. Na Avenida Atlântica, o bicho continuava pegando feio. Desmaios, senhorinhas sendo carregadas e casais discutindo a relação. Sobre as nuvens, Nossa Senhora de Copacabana mandou São Pedro e Oxumaré abrirem as torneiras para limpar a barra do populacho. Choveu baldes.

A distância entre a calçada do Copacabana Palace e o cercadinho VIP, que apertava mais ainda o zé-povinho na areia, parecia intransponível. Trinta cabeças por metro quadrado. Bêbados, moças de guarda chuva, senhores de chapéu ou pivetes, não importava: todo mundo reclamava da muvuca, do atraso e da chuva. “E aê, quando é que vai começar o show do Lení?” O Lení chegou, deu uma rebolada, falou inglês com o povão e levou uma gelada. Mas o bucha não estava interessado no palco. Sua missão era outra.

Depois de uma hora de perrengue, pisadas no pé, arranhões, mordidas de mosquito, cascudos, areia nos sapatos, concussões, tentativas de assalto, patoladas, empurrões, pescotapas e chuva na lata, o bucha conseguiu. Encontrou-me no cercado do camarote, tomando uma cerveja e olhando para o céu. É que para alguns desavisados o cronista também é VIP. Não nas acepções clássicas do termo como “Vagabundos Incensados Proxenetas” ou “Vim Inalar Pó”, entre tantas outras. Mas sim como “Valentão Inútil Pós-moderno”. Ou pelo menos é assim que as assessoras de imprensa me classificam nos seus caderninhos secretos.

Trinta metros quadrados por pessoa, bebida gelada, acepipes, loiras de shortinho e canastrões bombados: todo mundo se achando o sal da terra. Um zoológico de ovelhas tosquiadas agindo como leões e leopardos. Eu me apoiava nas grades da jaula quando fui surpreendido pela aparição mulambeira do bucha e sua pergunta fora de contexto. “Cuenca! Cuenca!”- o bucha gritava em meio a um solo de guitarra cheio de caretas do Lení. “Eu vim até aqui só pra te fazer uma pergunta. Você me responde e eu me mando, não te encho o saco!” Aceitei o acordo, aparentemente vantajoso.

“É muito simples, Cuenca! Eu quero saber se existe mulher bucha! Existe isso, Cuenca?” Não ouvi direito. “Mulher quando toma fora do namorado, fica buchando que nem eu, Cuenca? Me diz!” Sem saber, o bucha reprisou a pergunta que já fizeram ao cronista centenas de leitores e mocinhas via e-mail e carta. Sempre respondo da mesma forma. Desta vez, tentei ser delicado com o coração esgarçado do amigo, seus olhos metafísicos de passado e pureza esquecida. Pedi outra cerveja ao garçom. Ofereci um gole ao bucha, que usou o líquido para limpar o joelho ralado, e tasquei-lhe a real.

“Meu caro bucha, infelizmente sobre este planeta jamais passou ou passará uma mulher bucha! Quando levam um pé na bunda, as moças compram um vestido novo e saem por aí, recolhendo elogios e assobios. No máximo, ficam com dor de barriga por uma semana ou duas. E é só.

Vou te contar uma história: certa vez, amigo meu levou o filho numa boate de moças fáceis – se é que você me entende. Dançavam peladas e se ofereciam aos clientes. O garoto devia ter uns 16 anos. Ficou impressionadíssimo! Saiu dali se achando um grande galã. Porque todas as meninas da boate disseram: você é lindo. Todas as meninas olharam para ele dentro dos olhos. Entende? No dia seguinte o moleque foi a uma festinha de colégio e não causou nenhuma impressão. Ficou desolado.

Por que te conto isso? Porque é como se as moças vivessem sempre no mundo do moleque dentro na boate. Não importa se são bonitas ou feias, gordas ou magras, elas sempre vão ouvir elogios e galanteios mil. No mundo de fora da boate, os homens fazem o papel das moças fáceis. E por mais que não admitam, meu caro bucha, elas adoram! Não vivem sem os nossos olhos de espelho! E, sobre o espelho, você sabe: ele não importa. O que importa é o reflexo.

Há outros motivos para que não exista mulher bucha, mas essa história é suficiente para ilustrar a resposta. Agora vá! Suma da minha vista e reflita.”

O bucha misturou-se novamente a multidão, cabisbaixo. Depois disso, minha cerveja esquentou definitivamente.

Dentro da sua lógica infalível, nosso alcaide solucionou o problema da má conservação das marquises da cidade, que vitimou duas senhoras num recente desabamento em Copacabana, com um decreto que proíbe sua construção e exige a retirada das existentes. Faz todo o sentido: para que mobilizar os funcionários da Secretaria de Urbanismo numa fiscalização se o problema pode ser cortado pela raiz? O próximo passo será a demolição das varandas de apartamentos luxuosos na orla, como o que o prefeito tem em São Conrado – afinal, varandas são apenas marquises mais altas.

Mas nosso prefeito não limitará sua cruzada a simples derrubada dos alpendres cariocas. Essa crônica teve acesso exclusivo à lista de novas medidas que serão adotadas pela prefeitura nos próximos meses. Segue, em primeiríssima mão:

1) Para resolver o problema do passe-livre estudantil nos ônibus, as aulas serão suspensas por tempo indeterminado – reduzindo sensivelmente a necessidade dos estudantes em relação ao transporte público.

2) A camelotagem que ocupa as ruas da cidade será duramente combatida com a abertura de buracos e crateras nas calçadas, impossibilitando a ação dos varejistas de rua.

3) Os edifícios públicos, escolas, museus e igrejas em mal estado de conservação serão demolidos para a construção de estacionamentos.

4) Para coibir a violência urbana, será imposto toque de recolher nas ruas a partir de 19hs. Durante o dia, a guarda municipal distribuirá pistolas aos transeuntes.

5) Reforço dos cães da SUIPA para combater os gatos chiques da CEDAE.

6) Adiamento do PAN até que as obras fiquem prontas, em junho de 2046.

7) Para desafogar o trânsito e evitar assaltos nos sinais fechados, construção de elevados expressos na orla entre o Centro e a Barra.

8 ) Lei seca nas praias com o objetivo de coibir a maléfica ação dos barraqueiros.

9) “Choque de ordem” e banho de perfume em áreas degradadas da cidade como a Vila Mimosa, a Prado Júnior, o Piranhão (sede da Prefeitura) e o Palácio Guanabara.

10) Para preservação dos mares e lagoas da cidade, proibição por decreto de que os cidadãos cariocas apertem a descarga. A segunda fase da medida inclui a interdição da venda e instalação de novas privadas.

11) Despoluição da Lagoa Rodrigo de Freitas com a remoção total da água e construção de um shopping center.

12) Com o objetivo de coibir a violência nos estádios, transferência do Campeonato Carioca para Juiz de Fora.

13) Resolver o problema das inundações na cidade interditando definitivamente as chuvas, via contrato exclusivo do Cacique Cobra Coral com São Pedro iniciado neste ano.

14) Com o objetivo de manter a limpeza nas ruas durante o carnaval, blocos de rua serão duramente coibidos pela polícia montada. “Choque de ordem” na Marquês de Sapucaí e transferência do desfile das escolas de samba para Las Vegas.

15) Por fim, autodeclarado voto de silêncio da dinastia Maia pelos próximos cinqüenta anos, bem como proibição de freqüentar o noticiário, a passarela do samba, qualquer eleição ou crônicas como esta.

Uma parou na calçada do cinema, onde um gato comia carne moída sobre o jornal de ontem. Tinha mania de fazer amizade com os gatos de rua. Sentia mais pena dos gatos de rua do que dos meninos de rua – ou de mim. O bicho se esfregou na parede, desconfiado. Tinha bom senso. Uma insistiu e ganhou um arranhão no braço. Nem assim desagradou. No dia seguinte voltou e deu ração. “Aquilo não é comida que preste, tadinho!” E quis levar o bicho pra casa. Não falei nada. Acabou se instalando aqui dentro. Minha presença virou um comentário entre os assuntos do gato.

Ainda assim, todo dia Uma me espera pro jantar. Se esforça, mas cozinha muito mal. Desiste e compra congelado. Entro em casa e Uma me beija a boca. Estico os lábios e Uma já está de costas, a caminho da cozinha. Pergunta como foi o meu dia. “Resolveu os problemas no trabalho? E a conta, pagou?” Respondo o que Uma quer saber, tiro as calças, camisa, gravata, jogo tudo sobre uma cadeira no quarto, chuto os sapatos dentro do armário e sento no sofá. Ligo a TV. Uma põe a mesa e, quando vou sentar, reclama que estou sem camisa. “Onde já se viu sentar à mesa de cueca?” Não sei bem, mas acho que a maioria das frases que Uma me dirige são perguntas. Até as minhas perguntas Uma responde com perguntas.

Elogio a comida congelada de Uma (é como elogiar um peito de silicone), pergunto sobre seu dia e parece ter sido melhor que o meu. Uma volta pra casa mais cedo, por isso faz o jantar. Antes de mim, alimenta o gato. Vamos deitar e Uma coloca uma camisola preta. Mesmo depois de todos os anos, ainda gosto de ver Uma tirar a roupa. Toda vez que abre o zíper e abaixa as calças, me arrepia a nuca. Concentro toda a minha libido em Uma. No início é complicado, mas aprendo a fazer isso. A coxa de Uma já foi mais grossa. Uma não engorda, como temem as outras mulheres. Ao contrário, sua bunda e peitos murcham, como que sugados pela vida. Ou por mim.

Estou na cama lendo um livro quando Uma se troca, levanta o lençol e ajeita seu corpo perto do meu. Penso que estou feliz, que é bom estar casado com Uma, que, apesar de tudo, amo Uma. Talvez mais até do que a mim mesmo. Amo Uma flácida, de mal hálito, calcinha suja, sem saber cozinhar. Amo os cheiros bons e ruins de Uma. Acho que não sei mais como é meu cheiro sem Uma. Amo até o maldito gato. Amar Uma deixou de ser opção há algum tempo e eu gosto disso.

Começo a beijar o pescoço de Uma, sua orelha, atrás da sua orelha (ela adora ali). Pego sua cintura e pressiono meu corpo duro contra Uma que geme alguma coisa, se vira pra mim e, quieta, vai se deixando levar. Beijo Uma com mais intensidade, agora na boca. Jogo minha língua dentro da boca de Uma. Subitamente, Uma pára de me beijar. Estende os braços ao longo do corpo. Não responde nada. Sua boca seca. “Amor vamos dormir que tá tarde?” Apaga a luz e deita de costas pra mim. Pega minha mão e dormimos abraçados. Por um bom tempo ainda fico de olhos abertos e pau duro. O gato sobe na cama e se aninha aos meus pés.

Depois durmo e sonho que sou uma criança que não consegue olhar pro céu.

Do primeiro ao quinto ano da minha vida, morei na Vila Palácio. O conjunto de casas ficava na Rua Silveira Martins, no glorioso bairro do Catete. O portão de ferro que abria passagem à vila postava-se na altura, como você já deve imaginar, do Palácio do Catete. A nossa era a primeira casa à esquerda, com grandes janelas de madeira pintadas de azul e uma curta escadaria de mármore dando caminho à porta alta. A vila, por volta de 1983, foi demolida para dar espaço a um daqueles prédios tenebrosos. Hoje, só existe na lembrança dos que moraram por lá. Em sessenta anos, quando estivermos mortos, a Vila Palácio desaparecerá para sempre. Vai ficar presa na fotografia.

Da casa na Vila Palácio, só me lembro dos escombros. Depois da demolição, meu pai me levou para ver a casa tombada. No meio das ruínas, reconheci uma janela quebrada com um adesivo colorido que havia grudado no vidro. Essa lembrança me é muito clara: chega num fechar e abrir de olhos. O dia muito quente, eu andando sobre a casa demolida. Vejo meus pés minúsculos vestindo sandálias de couro branco (“Ortopé”), se equilibrando sobre as vigas murchas e o concreto rachado no chão. Vejo as tábuas das esquadrias das janelas, dispersas num arranjo sem sentido, a porcelana do vaso em cacos soltos, o emaranhado de canos inúteis nas pedras caídas, a pia branca de cabeça pra baixo e seu apoio comprido de louça despontando entre os escombros (uma garça esticando o pescoço).

Minha casa foi a primeira a cair.

Sempre que ando pelo Catete, como agora, com você, gosto de flanar pela Silveira e suas estreitas calçadas de pedra, sob a sombra das árvores do jardim do palácio. A Vila Palácio se foi (já era), e eu caminho por aqui como um sobrevivente. Se sou incapaz de me lembrar do interior da casa e te falar sobre meus pais juntos, recordo com perfeição os amigos que lá fiz, a cachorra que tínhamos (Nena, uma pointer inglesa anã, que o deus-dos-cães a tenha em bom grado), os passeios na praia do Flamengo, quando era limpa e tinha até tatuí fazendo bolha e buraco na areia quando vinha a onda. E te conto sobre o caminho que fazia todo dia, sentado num carrinho azul, até o colégio na Rua Paissandu: os sobrados da Rua do Catete, que me pareciam gigantescos, as lojas de móveis (pra que tantos?), o Largo do Machado, que já era outra cidade, e, finalmente, a longa reta da Paissandu, já em outro país, muito longe de casa e da felicidade (hoje vejo, me parecia eterna) da vila e dos jardins do palácio.

Anoitece e vemos, por trás das grades, o jardim onde eu-criança perdia as tardes correndo na terra, brincando com meus amigos da vila, subindo nos tanques arrefecidos na grama. Mas o jardim agora é outro. Minha sensação de ausência é amplificada pelos novos postes, de luz branca e fria. Derrubaram os antigos e colocaram monstros de alumínio no lugar. O progresso e a modernidade que destruíram a Vila Palácio, depois de vinte e três anos, aterrissaram por ali. Transformaram o jardim do Catete numa sala de autópsia ao ar livre. E o cadáver são as minhas lembranças.

Com as mãos dadas, deixamos os postes, o jardim e o Catete para trás. Voltamos pra casa nessa noite fria de primavera, tristes e calados como só eu e você sabemos ser. Hoje, dia do seu aniversário, te dou os parabéns por escrito, falo de amor e sonho que a nossa casa não vá ao chão. Que jamais ergam postes frios sobre o espaço da nossa ausência.

A saída do metrô da Carioca para a Rio Branco desemboca em um corredor formado por mostradores de livros usados, colares de artesanato, pinturas naïf e vendedores de cd´s piratas – os discos, não os vendedores. Ali, abrindo caminho entre a multidão de homens e moças de escritório, um sujeito com o rosto pintado de palhaço se equilibra sobre pernas de pau enquanto brinca com uma criança. A senhorinha olha o anúncio no peito do homem e puxa o filho pelo braço, horrorizada.

O palhaço faz propaganda de uma loja de produtos eróticos.

Ademir, o dono do saxofone, interrompe um trinado e chama o perna de pau da sex-shop. Anota o nome de um filme pornô no papel. “Nesse aí, me contaram que tem uma cena onde o casal se encontra aqui na Carioca, comigo tocando no fundo. Depois vão ao motel e aí rola aquela sacanagem. Só que não me informaram nem me pagaram nada. E o meu direito de imagem, pô? Me arruma esse filme aí que eu vou lá e créu nessa produtora! Você acredita que a Riotur também tá me devendo? Eles usam a minha imagem lá fora e não me dão nenhum tostão. É brincadeira ou não é?”

Estou encostado num poste, ao lado do músico, 25 anos de Largo da Carioca. “Eu é que comecei esse papo de saxofonista tocar no metrô aqui no Brasil. Antes de mim, só lá na gringa. Mas nunca saí daqui. Vi isso nos filmes.” Na frente do músico, um estojo de sax aberto com algumas notas dentro – um dólar, vinte reais, e poucas moedas. Um convite a contribuição dos transeuntes. Quando alguém encara demais o patrimônio, Ademir é rápido em mandar malandro tirar o olho: “Isso aqui não é banco, não! Tem que contribuir, rapá!”

O músico conversa entre frases tiradas do instrumento, como se a voz do sax fosse a continuação da sua própria. Sento na escada do metrô, tiro os óculos e caso um real. Ademir pergunta se quero alguma música. Peço que continue tocando “As time goes by”, interrompida pela conversa com o palhaço pornô. Logo no primeiro refrão, aquele do “you must remember this”, aparece um senhor de calça de poliéster. “De que filme essa é mesmo?”. Ademir é rápido em explicar: “Casablanca, aquele com o Bogart…” Os olhos do velho se iluminam. “Vi esse filme aqui na Cinelândia, há uns cinqüenta anos… Mas como é mesmo que acaba?”

Dou uma de espertalhão e entro no papo. Explico que a Ingrid Bergman vai embora no final com o marido e que eles “sempre terão Paris”. O senhor não se conforma e discute. “Claro que não é assim! O Bogarte (sic) não é dono daquele buraco lá, onde os alemães vão, rola uma cantoria e tem aquele pianista crioulo? Então. A mulher fica com ele e os dois passam a tocar a boate juntos. Depois eles voltam para Paris… Tem até um filho na jogada!” Falo da cena com a Ilsa dando as costas ao Rick e entrando no avião e certifico: “Ela termina com o Victor! O senhor lembra do Victor?” Mas o velho balança a cabeça: “Que mané Victor o quê? O garoto aí é muito jovem… Não entende nada de cinema!”

A voz do saxofone não quis saber das nossas palavras e continuou se espalhando sobre a multidão. E fez da corrida do povo atrás da hora e do algum, um balé de movimentos frouxos e suaves. Fez da barreira humana de vendedores, um coro de ópera do municipal. Fez dos mendigos cochilando sob a marquise do banco, coadjuvantes de luxo, elegantes e altivos, bebericando vinho do porto. Fez da criança revirando o lixo, um príncipe prussiano. Fez do palhaço de perna de pau anunciando produtos eróticos, um bardo europeu. Fez da secretária almoçando meio-galeto com fritas, a rainha das Astúrias degustando avestruz à moda da Pérsia. Fez do cronista e do senhor de calça de poliéster, um par de filósofos pré-socráticos conversando sobre a vida e a morte das estrelas. E fez, ainda que por um breve instante, Ilsa não pegar aquele avião e ficar com Rick. E fez de todos os amores, amores eternos.

Acabei concordando com o velho e seu final feliz. Admiti, inclusive, que não entendia lhufas de cinema. O que deixei o senhor sem saber é que tampouco nunca entendi muito da vida.

Ainda sou um forasteiro, eu e minhas horas de caminhada pelas ruas curvas, retas vesgas de mão tripla cortadas por uma mixórdia de faróis e buzinas, pelos becos de pedra e por ruelas de quinhentos anos que escorrem escuras até o Sena, onde gárgulas olham sobre os meus ombros, tiram estranhas conclusões e sopram absurdos nos meus ouvidos, por grandes avenidas nubladas de árvores nuas, e pelas incontáveis linhas de metrô que se contorcem sob a cidade como serpentes ocas de concreto, umas sobre as outras. Em todos os lugares que se possa estar, a oferta de cafés, bares e restaurantes é caleidoscópica – centenas de milhares de letreiros de néon sobre portas art déco, aquários esfumaçados de palavras que não compreendo. Escolher em qual deles entrar é uma impossibilidade. Vago com as mãos nos bolsos cheios de moedas, olhando de fora para dentro, escapando do meu reflexo nos vidros sujos, imaginando como seria estar em alguma mesa, vou e volto, premio minha indecisão com passos pelo frio, uma procissão por quarteirões desconhecidos, e, depois de algumas horas escolho algum lugar para sentar. Então abro esse caderno e peço uma taça de vinho, e outra, e depois peço uma garrafa do vinho da casa (um bordeaux vagabundo sensacional), e fico enchendo minhas horas com o vermelho do vinho e com o som das vozes e de uma música ordinária que sai das caixas de som. É um sábado à noite e o bar na Rue Decartes está lotado, assim como todos os outros buracos da Rue Mouffetard e do Quartier Latin. Para os franceses, cheguei tarde (uma da manhã), e estamos na hora mágica em que as moças estão docemente alteradas pelo álcool, sendo convencidas pelos homens sentados à sua frente a trepar. Pelo panorama, vejo que terão sucesso. Eles cochicham nos pequenos ouvidos das moças, que riem, curvam o pescoço para o lado e despenteiam os cabelos, soltando abismos nos coques dos cabelos pretos. Sobre as francesas: são definitivamente loucas. Choram pelas calçadas onde pisam forte como cavalos xucros, bufando, enforcadas pelos cachecóis. Nos cafés, todas as manhãs, perdem o foco do olhar e das sobrancelhas arqueadas para o nada, misturadas como se guardassem uma multidão enfurecida dentro de si. E fumam, fumam compulsivamente, inspiram a fumaça para dentro do seu corpo, dos pés até os pêlos dos braços, e depois exalam um pouco delas junto com uma nuvem cinza escura – e fico sem saber o quanto do cinza pertencia a elas ou ao cigarro. Agem com intensidade disfarçada – são blasées nos gestos, mas estão à beira de um grito histérico que iria desmontar todos os penteados e catedrais de Paris. Todas parecem atrizes de teatro. Uma mulher francesa deve ser um pequeno e delicado inferno. (E pensando melhor na idéia que eu tinha das francesas, agora vejo que você parece muito mais francesa do que a maioria das francesas.) Os homens, como as moças, são muito bonitos e tristes, como diria Hemingway, do jeito que só um jovem francês pode ser. Mas não escapam da herança genética masculina e, apesar do porte de galã, são umas bestas de olhar canino, balançando os braços para os lados enquanto andam, falando alto e cuspindo pelas calçadas com cheiro de mijo. Todo mundo aqui se veste bem e penteia (ou despenteia) cuidadosamente os cabelos. Todos, é claro, menos eu. Sempre que são na rua, lembro que preciso comprar um sapato novo e um sobretudo decente. Mas acabo gastando todo o meu dinheiro com comida, museu, café e doses cavalares de vinho tinto. Ontem fez sol e muito frio, e amanhã vai fazer mais – frio e sol. Para mim, um dia de sol com temperatura próxima de zero é como um sonho estranho, sem sentido, misturado. Espero continuar acordando para dentro do sonho, espero conseguir fazer sentido em breve. Volto a escrever. Mais e, espero, melhor da próxima vez. Com amor, João.

Estou na inauguração de um bar e acabei de perder a conta dos chopes. Quando você começa a beber, sempre conta o número de chopes que bebeu. Um, dois, três, quatro, treze. É um jogo infantil. Perder a conta dos chopes acontece se você passou do oitavo ou se você está bebendo de graça. Eu estou bebendo de graça. Tento sorrir para meus colegas de mesa, aceno para algum conhecido que aparece, faço um gracejo idiota para alguém que acabei de conhecer. Sou um engraçadinho espirituoso. O som infernal de vozes e copos se chocando ressoa pelas paredes recém pintadas de verde-limão. Estamos todos histéricos, rindo e nos esfregando como hienas epilépticas.

Termino de beber a exata tulipa que me faz perder a conta dos chopes. O eficiente garçom imediatamente me serve outra. Nesse estágio, beber é como injetar fé na humanidade. Como diria o Nelson, o sujeito que bebe atravessa um estado alcoólico que não é ainda o pileque. Perder a conta dos chopes é assim. Há mocinhas que perdem a conta no primeiro – antes mesmo de dar um gole. Outras, resistentíssimas, encaram maratonas e bebedeiras intermináveis. Fato é que, enquanto o homem três (e apenas três) doses acima é mais charmoso, “denso, amoroso e lúcido”; a mulher que bebe costuma imediatamente descer vários degraus da traiçoeira escadaria da elegância. Desbocada e estrepitosa, acende um cigarro e gargalha com a boca aberta, cuspindo os dentes sobre a mesa. Dia seguinte, maquiagem borrada, muxoxo e dor de barriga.

A leitora indignada: “porco machista!”O cronista diz que não é bem isso, não é bem assim. O homem é um pobre coitado – precisa beber para empatar com o mundo. A mulher já ganhou. Nasceu com o mundo ganho. O sujeito bebe em busca de aprimoramento pessoal.

A mulher não tem o que melhorar. Ela já é melhor. Se melhorar, ela estraga.

Perco a conta dos chopes na inauguração de um bar na esquina da Domingos Ferreira com a Bolívar, em Copacabana. Ali onde ficava o Nino. Morei na Bolívar com meus pais até fazer três anos de idade. Desta época, só guardo as fotos de uma criança gorda brincando na areia branca ao lado de um casal apaixonado. Da mesa onde estou, vejo o pirulito da esquina onde devo ter passado tantas vezes indo para a praia sentado num carrinho de bebê, com um boné na cabeça, segurando um balde de peixe vermelho. E talvez tenha perdido demais a conta dos chopes: penso em como roubar a placa azul da Rua Bolívar. 

(Embriagado, sou tomado por uma obsessão inexplicável por sinalização urbana. Já roubei cones de trânsito e levei placas de esquina para casa algumas vezes. Com os cones, penso em fazer uma mesa para a sala de estar. A última placa foi roubada da esquina da Rua Cosme Velho com Marechal Pires Ferreira. Virou pôster na parede do quarto do meu irmão.)

Olho para um canto e vejo o Nelson pedindo uma Lindóia e um copo de leite. Agora não tem mais Nino, e as crônicas do Nelson no Nino, e os amigos do Nelson no Nino e tanta gente que freqüentava o Nino, se conheceu no Nino, se apaixonou no Nino e rompeu relações eternamente, para nunca mais voltar a se ver, no Nino. No entanto, estou aqui, sentado no bar frio e sem alma onde ficava o Nino. Agora não tem mais a criança feliz e o casal apaixonado morando num apartamento pequeno no final da Bolívar. No entanto, estou aqui, sentado: perdendo a conta dos chopes. Não importa que não tem mais Nino. Não importa que não tem mais a criança, o cronista, o casal. Não importa que não tem mais a paixão, morta em noites claras como essa. Não importa que botaram um bar fingindo que é botequim com as pares pintadas de verde-limão no lugar de tudo.

Pelo menos não é um McDonald´s.

Em São Paulo, dentro de um quarto de hotel no topo de uma pirâmide. Minhas janelas, que não abrem jamais, são azuis. Refletem-se no prédio do outro lado da rua, também espelhado. Nele, centenas de sombras encaram monitores, arrastam-se de um lado ao outro do andar, como formigas. Colo o rosto no vidro temperado: sou uma minúscula mancha distorcida impressa no arranha-céu de escritórios, separado de mim, janela e hotel, por uma avenida. Além da minha pequena cópia, a fachada também reproduz, numa perspectiva cubista, anúncios coloridos, telas cinéticas de cristal líquido, edifícios em construção e, quando anoitece, o traço brilhante e vermelho dos faróis que vão, o rastro branco e oblíquo dos que chegam. Abaixo, fora do ar-condicionado e do cômodo sem cheiro, uma procissão interminável de automóveis disputando espaço com motociclistas em bando. Surgem repentinamente: uma nuvem de poeira e barulho metálico abrindo passagem.

Hoje cedo, o motorista disse: são uns loucos, irresponsáveis. Morrem dois por dia. Ou três. A cidade é uma máquina de moer carne, freou áspero. Engarrafamento.

Indiferença bruta e soberana das catedrais de ferro, vidro e concreto, debruçadas sobre avenidas e marginais, de salões imensos no térreo onde, às costas dos vigilantes de terno, jorram fontes d’água, crescem jardins e até palmeiras. Pobres das palmeiras da Faria Lima, que sobre a copa enxergam um teto branco e morrem sem conhecer o céu.

Há muita educação e polidez: o paulista é um solícito respeitador de filas. Pede licença. Boa tarde, senhor. Vejo o formalismo que permeia tudo como uma tentativa cega de manter algum tipo de ordem, urbana ou mental. Não deve ser fácil. Os olhos pedem uma fuga qualquer. Não há. Andando a pé, traçando uma linha reta em qualquer direção, fico imaginando quantos dias levaria para chegar a algum horizonte perfeito que cortasse o céu em duas partes exatamente iguais. Não há horizonte possível em São Paulo. Apesar de tantas linhas retas, não há simetria, as perpendiculares são tortas, cicatrizes sinuosas riscadas por um cirurgião extravagante.

Pois que se invente o horizonte.

E, sob tamanha falta de espaços, talvez você se encontre como quem mete a mão nas próprias vísceras, descobrindo unhas sujas de sangue e lama entre os labirintos de asfalto, esqueletos de concreto e hieróglifos pichados em muros. Que se invente o horizonte sob o relinchar de helicópteros, carros de luxo e lotações apinhadas. Na falta de contato visual dentro do ônibus, em filas mudas, museus, centros culturais, palácios de metal, nos rostos de gente vestida de preto, punks, góticos, engravatados, retirantes, pobres, molambos, manos e na infinidade de japoneses que surge de todos os lugares, como pombas brancas e caladas.

Caminho pelo centro velho de São Paulo, alienígena de mim mesmo, e sinto toda aquela gente, som e concreto como uma capa de gordura que me separa da realidade, do toque gelado e viscoso da terra e do mar. Mas e se a verdade estiver nos ângulos fechados? Entre os carros que circulam como moscas, os pneus mascando asfalto, cuspindo poluição? E se estiver oculta sob o sentimento constante de que há algo de fantástico e inexplicável acontecendo todo o tempo (e de que não estou participando disso)? E se a realidade for a lua ocre, apagada? O céu curto, a turba solitária? Se isso tudo é real, o que então me afasta da realidade?

Em São Paulo, continuo me sentindo como uma mentira. Por isso, adoro a cidade. Aqui, não existo.

Caro Chico, li o e-mail que você me mandou mas não tive tempo de respondê-lo antes. Fico feliz em saber que tudo vai bem por aí: os estudos, o trabalho e a mulher. Manda beijo pra Ana. Tenho saudades de vocês, temo que fiquem por aí de vez. Há dias em que acho que seria bom negócio. Lembro que você estava assustado com a leitura dos jornais brasileiros pela internet e me perguntou se o bicho estava pegando mesmo por aqui.

Está, não está. Tudo continua dando um jeito diferente de continuar igual. Os senhores barrigudos de sunga continuam tomando chope no boteco da esquina da Paissandu, as meninas com roupa de lycra continuam rebolando pelos quarteirões e os sujeitos continuam cada vez mais fortes e altos – se continuar assim, nossos netos terão dois metros de altura e 130 quilos. O nosso Mengão continua numa eterna hora da xepa, sétimo técnico em 16 meses. Fluminense levou o título do estadual num jogo roubado (como sempre) e a seleção do Parreira continua com o jogo embaçado.

A maioria dos nossos amigos continua encostada na casa dos pais, reclamando da vida, sem bom emprego e grana no bolso. A TV continua cada vez pior e cada vez mais batendo recordes de audiência, 80% de share, retorno total de mídia. A música que toca na rádio continua cada vez mais conchavos e jabá. A polícia continua metendo bala, os traficantes também. Lula, Garotinha e César continuam agindo como três patetas do inferno. E o povo na mesmíssima: esgarçado no meio do tiroteio. A coisa aqui, meu caro, tá pretíssima.

Nunca saí tão pouco à noite. A última moda são aquelas festinhas anos 80, lembra delas? Perderam a graça em 95, mas ninguém notou. Por semana aqui no Rio são no mínimo dez. Lotam o Circo Voador. No século passado, o Circo lançava tendência. Hoje em dia a tendência é a banda cover de música ruim. Barrigudinhos de 30 anos que não viveram adolescência se olham no espelho retrovisor, ajeitam a camisa para dentro da calça, tentam recuperar tempo perdido. Adolescentes difusos pegam nostalgia emprestada - zumbis de olhar ermo, mendigando sentido. Tocando o gado, os organizadores ganham boa grana com a indigência existencial dos outros. E quer saber? Estão certíssimos. Há de se ganhar o qualquer um e a vida.

Sabe aquela música do Bob Dylan, “People are crazy and times are strange”? Não chego a ficar raivoso como antes. Você deve se lembrar como eu era, Chico. Hoje só consigo sentir vazio e pena. Uma enorme pena de todos nós. Dos coroas filtrando o chope dentro de suas enormes barrigas, das moças e marombados feitos de lycra, dos chatos do Estação Botafogo, das mini-celebridades da internet compartilhando solidão em diários insossos, da galera se esgoelando ao som da novidade de 20 anos atrás, dos velhos jornalistas e sua boêmia enlatada, dos novos jornalistas, sem sonho ou estofo, e dos jovens e velhos escritores, compulsivos, mascando palavras e mascarando vaidades. Pena dos três poderes: policiais, traficas e políticos. Pena do povo achando que não tem culpa, que não é com eles – digo, conosco.

De vez em quando, passa um filme no cinema ou ouço um disco bom. De vez em quando, gosto de levar a menina para dançar e às vezes dá para ir a um lugar que não esteja cheio de babacas. Fazemos um casal bonito e a amo como um pobre desesperado. Eu a transformei em personagem de crônica e os leitores gostam mais dela do que de mim. Pedem crônicas e mais crônicas sobre a menina triste de olhos verdes. Estão certíssimos. Eu também gosto mais dela.

Você contou que viu um cara muito parecido comigo no metrô de Londres. Pois talvez tenha sido eu. Se o encontrar de novo, diga que preciso de uma horinha comigo mesmo. Sabe quando o céu escurece, as nuvens pesam sobre as nossas cabeças, o ar e a luz do sol ficam de um jeito estranho e o pessoal fala “vai chover pra burro”? Ando assim: quase chovendo pra burro.

Novidade mesmo acho que só o novo sistema de ar-condicionado e iluminação do Lamas. Ficou mais bonito. Resta saber se aquele odor inconfundível pós-Lamas, de cigarro e mofo, vai continuar. O perfume do Lamas é uma tradição aqui em casa. Desculpa tanta chatice, meu amigo. Acho que preciso de um tempo por aí. É verdade que na Inglaterra não existe chope gelado? Estou ficando velho cedo demais. Preciso sentir falta do chope gelado. E da paisagem. Essa cidade é muito bonita e a gente se acostuma. Na verdade, se acostuma com tudo, não é? Boa sorte por aí. Manda notícias. E não me leve a mal. Um grande abraço, JP.

Na última madrugada, nos encontraremos sob um pirulito de esquina marcando o cruzamento de duas ruas que não se encontram (Rio Branco com Vinicius, Barata Ribeiro com Paissandu), e ali você apertará minha mão antes da nossa correria pelas avenidas desocupadas, entrando e saindo de jardins e parques imaginários, nossos corpos iluminados por uma lua minguantemente fria, vigiados por umas poucas janelas acesas no topo dos prédios.

Por trás delas, cortinas vermelhas guardarão o sono de sabe se lá quem, e nós dois perderemos horas sentados numa pedra de calçada, despindo as paredes num jogo de adivinhação sobre o que aconteceria por trás da fachada dos últimos andares, na penumbra dos quartos calados (uma luz de cabeceira desenha um círculo no teto, um vulto se mexe) e nos grandes salões vazios da Avenida Atlântica (quadros azuis na parede, o movimento interrompido dos bibelôs).

Suas histórias sobre os apartamentos e seus moradores de ficção serão sempre melhores do que as minhas, e com essa doce derrota será inaugurada nossa última noite. Sem alarde ou o desejo de estar em algum lugar em especial, e, ao mesmo tempo, estando em todos os lugares, nos esparramando pela cidade aberta, asfaltando o chão com os nossos pés, erguendo a paisagem com os nossos olhares de criança.

Depois desses jogos de imaginação na calçada, entraremos, sob a proteção de toda a cavalaria de Jorge da Capadócia, num subsolo qualquer em Copacabana onde você esquecerá meu nome depois de duas batidas de abacaxi e eu enlaçarei seu corpo num passo desastrado enquanto todos do lado de fora de nós dois desbotarão, perdidos num outro fuso. Abafados pela fumaça, dois andares abaixo das pedras portuguesas, riscaremos com os pés o traço de fronteiras entre países desconhecidos: eu perdido num cabaré da europa oriental, você escondida num beco em Damasco, vestindo um véu nos ombros sob a marcação de um surdo desafinado e o fim do terceiro refrão.

Lá fora, abandonando o tempo do mundo, espreguiçaremos nossos tentáculos um para dentro do outro, dançando o último samba da última madrugada, que será entoado no meio da rua, na passagem dos carros ausentes, por um grupo de malandros cabisbaixos, daqueles que, como nós, varam a noite batucando tamborins até o início do dia.

Depois, e recorrentemente, teremos sono na última madrugada. Deitaremos na praia, você pousada nas minhas coxas, eu perdido nas suas órbitas, e veremos o oceano riscar elipses na areia. Sobre o mar, a ponte prateada derramada pela lua se esticará do abismo (o horizonte, atrás das Ilhas Cagarras) até a ponta dos nossos dedos descalços e sujos (os seus num movimento constante, os meus, calados e embrutecidos). Na nossa última madrugada, seremos como os galhos de duas árvores que não se vêem, mas que se tocam quando venta.

Teremos fome, e iremos comer numa confeitaria no Leblon, num hotel na Presidente Vargas, num bingo no Catete, no Capela da Lapa. Depois, numa calçada da Mem de Sá, você vai me empurrar num balcão iluminado onde comprará uma ficha de videokê para cantar, trôpega, a última de amor. Longe, carros vão frear, alguém vai quebrar uma janela. Haverá também o miado dos gatos, as baratas e ratos inaugurando bueiros. Um grito abafado de mulher. E a multidão silenciosa, deitada em milhões de camas, encolhida sob as marquises, flutuando sobre nós e a cidade.

Antes de voltar para casa, no ponto de um ônibus que nunca chegará, você vai me perguntar se eu posso ouvir, por trás do silêncio, os sonhos de todos os que dormem: “São milhões sonhando enquanto estamos acordados”. E eu vou te contar mentiras e dizer que sim. Que posso ouvir todos os sonhos do mundo. Que, na verdade, eu e você somos sonhados por outros, que agora dormem. Que a nossa última madrugada jamais amanhecerá.

O senhor acordou no meio da noite e notou algo estranho na penumbra do quarto. Com a cabeça ainda presa ao travesseiro, forçou a vista e teve a impressão de que o lustre sobre a cama não estava mais preso ao concreto liso e branco do teto. Parecia pendurado a um vidro ou a alguma estrutura translúcida. Sequer teve tempo de ficar curioso: rapidamente acendeu o abajur do criado-mudo. Acima do lustre e do que haveria de ser o teto, viu o fundo de uma mesa. A face inferior de uma cesta, um vaso e o estrado de uma cama de solteiro. Desviou o olhar para o lado e viu a base de uma cômoda e o verso de um tapete colorido. Voltou o pescoço para cima, esticou a vista e pôde enxergar, sobre uma montanha de móveis e corpos estendidos, através de uma pequena brecha, a lua cheia.

Levantou-se da cama procurando alguma explicação para o que acabara de vislumbrar. Quando apoiou os pés no chão, uma súbita vertigem lhe subiu pela espinha e tirou seu equilíbrio. Encheu os pulmões cansados e repetiu o processo de exploração visual, desta vez olhando para o chão – que não mais havia. Exatamente sob seus pés, apenas um espaço vazio o separa de uma cama, onde uma senhora dorme e ronca com a TV ligada num daqueles programas que vendem jóias de madrugada. Abaixo da senhorinha, casais, gente sozinha e algumas crianças se amontoam até o térreo. Todos dormem, com exceção da menina do terceiro andar, rosto iluminado por uma tela de computador. Devia ter 16 anos, 17, no máximo. Vivia abraçada com o namoradinho, encostada no carro estacionado em frente à portaria do prédio, o que causava particular exaltação ao senhor – era no capô do seu carro, um Landau 1967, conservadíssimo, que o jovem casal trocava juras de amor.

Deixou a irritação de lado e concentrou-se no seu problema imediato. Ainda confuso, voltou o olhar para a parede em frente a sua cama. Enxergou seu reflexo enrugado, mesmo sabendo que nunca houve espelho naquela parede. Percebeu que seu rosto assustado estava sendo refletido pelo espelho do banheiro do vizinho. E viu a pia do morador do 703, com quatro tubos usados de pasta de dente de hortelã pela metade; o boxe, xampus e condicionadores anticaspa; o bidê, usado como revisteiro, jornal de ontem e revista de mulher pelada.

Caminhou até a janela e, apoiado no parapeito sem cor, tendo o cuidado de não olhar para baixo, apontou a vista para os prédios do outro lado da Rua Paissandu. A visão aterradora dos edifícios descortinados e seus pequenos movimentos por trás das palmeiras fez com que novamente perdesse o equilíbrio. Naquela noite, sabe-se lá por quê, havia perdido completamente a capacidade de enxergar paredes.

Começou a olhar para dentro da casa dos outros, numa exploração que viria a tomar todos os dias do que restava da sua vida. Naquela noite, a vizinha do terceiro andar era a única acordada além dele. O senhor espichou os olhos alguns andares abaixo dos seus pés, para dentro da mesa de cabeceira da menina. Ali guardava seu diário, bilhetes, recados e cartas românticas que escrevia sem enviar. Cartas bobas, chorosas, que o velho leu sôfrego, com o olhar trêmulo de uma ansiedade que julgava perdida há algumas décadas. Entre páginas marcadas, havia fotos da menina com as amigas na sala de aula, numa micareta no Espírito Santo, entre dois ou três sujeitos que ela certamente havia beijado, para decepção do senhor. Pôde ver também, no mural ao lado do computador, fotos da menina criança ainda. Vaidosa, cabelos presos num rabo-de-cavalo, vestindo vermelho com bolinhas pretas. Certamente malcriada.

Sentado na cama, com o pescoço tombado para baixo, o senhor ficou ali algumas horas acompanhado da menina do terceiro andar, suas palavras ingênuas, gavetas, calcinhas e lembranças, até que dormiu. Ainda não sabia, mas deixar de enxergar paredes premiou-o com inédito sentimento de compaixão.

Despertou radiante, como alguém que ama pela primeira vez.

Estou em casa, imerso em autocomiseratórios pensamentos por não ser Nelson Rodrigues e escrever crônicas numa velha máquina de escrever manual, imerso na pândega ruidosa de uma redação lotada, atendendo pessoalmente telefonemas e reclamações dos leitores, convivendo com uma fauna de colegas, estagiárias e mensageiros. Hoje, as redações parecem bibliotecas, as estagiárias não são mais espirituosas e, ao cronista, resta o computador. Mas a companhia que se pode ter através da tela não se compara.

Desligo o monitor sob o ressoar de vozes e risadas desconexas que escalam as paredes e chegam até meus ouvidos, no décimo andar. Vêm da Adega Real, esquina aqui de casa. Desisto de tentar arrancar idéias dos meus dedos e me junto ao inimigo barulhento: “um chope, por favor!”. Apesar da noite feita há algumas horas, gente de sunga e chinelo divide o balcão comigo. Um amigo paulista disse certa vez que, se a diferença entre as duas cidades pudesse ser resumida numa só imagem, seria a foto de um sujeito barrigudo de sunga atravessando a rua. O carioca deve louvar essa distinção como um patrimônio natural. Meus pensamentos seguem as bolinhas que sobem pelo líquido dourado do chope quando sou interrompido por um zunido ensurdecedor que cala a Marquês de Abrantes.

Carregado por uma nuvem de gafanhotos egípcios, eis que surge amigo meu de longa data. Os insetos trazem suavemente seus pés ao chão e ele anda dois passos até me olhar nos olhos e dizer: “Cuenca! Não acredito. Era você quem eu precisava encontrar!” Viro a tulipa num longo gole e o cumprimento. Os gafanhotos abaixam suas antenas e ficam por ali, meio perdidos e cabisbaixos. Sossegam as asas e tudo parece voltar ao normal. Falamos afinidades por cerca de dois minutos: assuntos de trabalho, política e futebol. É aí que eu cometo o grande erro e pergunto, “como vai a namorada?”. Meu amigo crispa a testa e, mal contendo as lágrimas que brotam pelos olhos injetados de sangue, diz estar, novamente, largado no mundo, sem amor. Revela-se, pois, a face do bucha.

O novo significado para o termo “bucha”, cuja definição exata ainda não ganhou o Aurélio, foi cunhado por um grupo de amigos, todos eles buchas incuráveis. O bucha não é simplesmente a pessoa “muito incômoda, desagradável, importuna, ou sem valor”. A acepção proposta define o homem em estado de desilusão amorosa. Rejeitado por uma dama, afetado por profunda amargura e desamor. Desesperançoso, o bucha promete nunca mais arrumar outra “porque são todas iguais”. Ainda assim, o bucha procura sua amada pelas ruas e chega a tomar anônimas que cruzam seu caminho pela mulher que espicaça seu coração. Confuso, o bucha escuta a voz suave do seu ex-amor saindo de todas as bocas do mundo. O bucha, constantemente desesperado, sempre acaba encontrando a ex-namorada passeando com o substituto mais recente. A ex-namorada do bucha sempre arruma um novo namorado antes dele. E o bucha sofre horrores. As mulheres sapateiam sobre o ego do bucha, que enche a cara e a paciência dos amigos. O bucha não tem outro assunto. É uma donzela corrompida.

Falemos então do tal “Binômio de Lacombe”, assim batizado em homenagem a outro amigo, estudioso desses casos notáveis. O binômio tem fácil explicação: carência e auto-estima. O bucha está com a auto-estima em baixa pois foi rejeitado pela mulher que ama. E está carente, com uma caverna de mágoa no meio do peito. Os fatores que compõem o terrível “Binômio de Lacombe” se alimentam levando nosso amigo bucha ao subsolo da existência. Por não ter auto-estima, não consegue suprir sua carência. Por isso, fica com a auto-estima menor ainda. E mais carente, e por aí vai. É um circulo vicioso.

Voltando à Adega Real, o que o bucha dos gafanhotos se esforça para dizer, entre tanto chororô, é que esse papo de relacionamento é a maior furada. Que, cedo ou tarde, todos eles acabam. E que logo elas estarão às voltas com seus novos namorados e que todas as juras de amor terão o valor de um jornal velho. Ser bucha é desconfiar do amor, sempre. Ofereço um chope ao bucha, mando o sujeito escrever uma poesia e arrumar outra mulher naquele boteco mesmo. E ainda brindo: “Que venha a sua próxima!”. O bucha, ofendidíssimo: “Cuenca, você está achando que eu sou o quê?”

Antes que o cronista pudesse afirmar sua crença inabalável no amor verdadeiro que se esconde por trás do sono da menina de pintinhas e olhos verdes, os gafanhotos reuniram-se na esquina e voltaram a zunir, batendo asas. O bucha recuou, muito magoado com o cronista, abriu os braços e se deixou levar pela nuvem de insetos. Foram em direção ao Aterro do Flamengo, levando consigo sua névoa fastidiosa de recalque e romantismo destrutivo. Assim que viraram a esquina, um senhor barrigudo, daqueles de sunga, me cutucou e disse, “esse aí nunca vai saber o que é gostar de alguém”. Eu perguntei, “e por quê?” O senhor, com a boca cheia de risole de frango, pousou a mão no meu ombro e deu fim a crônica: “amar uma mulher é também deixá-la ir embora”.

Quando a casa cai e o cronista precisa de um supositório de serotonina para levantar a moral, vai almoçar em Copacabana. No dia do aniversário da cidade, deixei o castelo da Rua Paissandu em clima de solitária celebração. Sentei no lado esquerdo do ônibus, perto da janela. Gosto de pegar vento no focinho. Um moleque atrás de mim tocava “Asa branca” na flauta doce. A introdução, se é para falar a verdade: depois da quinta nota, errava e começava tudo de novo. Apesar de não me deixar ouvir meus pensamentos, era a única alegria dentro do carro. Sacolejamos no coletivo, sob tarde atípica de chuva e sol. Saltei com uma luz estranha sobre a cabeça.

A primeira vez em que, já barbado, coloquei os olhos no número 719 da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, teve sabor de déjà-vu. Passei ao largo do balcão, pelos bancos redondos enfileirados e cheguei ao salão principal: ar-condicionado de cinema no teto, espelhos com molduras vermelhas nas paredes. Achado com ares de epifania. Pouco tempo depois descobri o significado especial do lugar. Meu pediatra ficava ali perto e, após a consulta, sempre arrastavam as botas ortopédicas da criança até o Cirandinha – eu odiava ir ao médico e um sorvete era a recompensa. A redescoberta do restaurante, com um hiato de décadas, deu-se há exatamente cinco anos. Eu morava num cubículo ali perto, na Rua Santa Clara, e passei a freqüentar o salão refrigerado quase todos os dias. Apesar da grana curta, não dispensava o restaurante, mesmo que fosse para comer um salgado ou um X com fritas, como alguém que se dá um presente. Acredito que gastei pelo menos a metade de todo o dinheiro que ganhei até hoje bebendo ou comendo fora.

Abri um sorriso e o cardápio, oferecido pelo eficiente garçom Pedro Gomes. “O Cirandinha oferece a você, cliente especial, as mais deliciosas refeições”, “convide seus amigos para conhecer o Cirandinha”, “serviço de chá de primeira classe para você relembrar as boas coisas da vida”: entre essas mensagens do menu, escolhi um Osvaldo Aranha (R$ 19, dá para duas boas almas) e uma Bohemia de garrafa grande – vantagem insofismável do lugar sobre seus concorrentes. Mas não é isso que faz do Cirandinha um clássico pessoal. Há uma série de detalhes que justificam a paixão do cronista. Por exemplo, as toalhas de mesa. Toda mesa tem duas toalhas de pano, uma branca e outra marrom, dispostas geometricamente enviesadas uma sobre a outra. O guardanapo também é de pano, cheirando a amaciante de lavanderia. Nada de plástico, jogo americano ou guardanapo de papel.

Outra diferença fundamental é o serviço. Os garçons do Cirandinha, vestindo terno marrom com quatro botões (combina com a toalha de mesa, com as cadeiras e com a parede), sempre são atenciosos e realmente lhe servem. Alguns garçons, em estabelecimentos menos abençoados, deixam a travessa sobre a mesa e não colocam a comida no prato do cliente. No Cirandinha, o sujeito chega a ser servido por uma junta deles no delicado momento de transferir as batatas portuguesas e a farofa para o prato.

Além da comida, do guardanapo de pano, do bom atendimento e dos preços, há o fato de que o Cirandinha nunca está vazio. Na hora do almoço, do chá e da janta, famílias de Copacabana confraternizam-se, senhoras de cabelos pintados de rosa, branco, amarelo e todo o espectro possível de cores que o olho humano é capaz de captar, senhores batendo animado papo com os garçons, comentando o Globo Esporte na tv, moças chegando da praia e crianças brincando com a comida, todos embaralhados no caleidoscópio formado pelos espelhos que se refletem entre as paredes. O cronista tenta ser técnico, explicar sua predileção, mas o que faz de um lugar um lugar, é o mesmo que faz de uma mulher a sua mulher. Ela simplesmente é melhor do que todas as outras.

O Rio ainda fará tantos outros aniversários, e as crianças deixarão suas botas, galochas e flautas doces para trás, e as senhorinhas descobrirão colorações inéditas para seus cabelos, e os casais calados na mesa perto do banheiro trocarão seus pares, tantas vezes ainda!, e o Flamengo vai perder e ganhar torcedores, e os garçons vão morrer e deixar seus ternos de quatro botões para o próximo funcionário, e tanto samba e tanta bala ainda vão zunir sobre os morros, o topo dos prédios e a copa das árvores. A menina triste de olhos verdes pode até abandonar o cronista num dia de festa, daqueles em que o centro fica vazio e a gente do escritório joga papel picado pela janela. Mas a impressão que tenho é que, quando tudo passar, o Cirandinha e eu continuaremos exatamente os mesmos: gelando sob nossas paredes de espelho e ouvindo a conversa dos outros.

Ontem, flanando pela Rua Dias Ferreira, fui invadido por súbita nostalgia pornográfica.

No final da década de oitenta eu era um garoto de onze anos. O pai de grande amigo meu era dono de uma farmácia nessa rua e, enquanto não estávamos atrapalhando o movimento, passando trotes por interfone e correndo de porteiros raivosos, nossa principal ocupação era convencer o dono da banca de jornais em frente a nos vender uma revista de sacanagem.

Até então, nos virávamos com uma ou outra “Playboy”, “Status” e “Ele & Ela” (as últimas, mais ginecológicas) e até com anúncios de lingerie. Mas chegara o momento de dar um basta definitivo à precariedade das nossas musas e fontes de inspiração.

A Faixa de Gaza que nos separava das revistas suecas, embaladas em plástico opaco nas prateleiras superiores, era composta, além da muralha de publicações respeitáveis à frente, por um jornaleiro inflexível. Nossas estratégias variavam: pedíamos para alguém mais velho comprar a revista. Mas se o dono da banca desconfiasse que as revistas chegariam às nossas mãos trêmulas, não as vendia de jeito nenhum.

Depois, e aí já não sei se isso é lembrança ou invenção, acho que acabamos fazendo um esquema de aluguel, no que talvez tenha sido meu primeiro ato de corrupção. Ele não vendia as revistas, mas nos emprestava por uma tarde em troca de algumas moedas. Pedia que não devolvêssemos as revistas “com as páginas grudadas” – o que só fui entender tempo depois.

O que senti na primeira vez que explorei um desses compêndios suecos fartamente ilustrados e cabeludos é inexprimível. Antes de tudo, as figuras não me pareciam humanas. Não conseguia decodificar o que estava fotografado em close. Nessa época, depilação não era um tema (aqui ou em Estocolmo), o que fazia tudo ficar ainda mais confuso. Ríamos dos diálogos bizarros e fechávamos a revista excitadíssimos, cheios de culpa e pavor.

Outra estratégia, repetida ao longo dos anos por todos nós, foi a exploração de gavetas na casa dos pais. E aí não sei o que mais nos chocava: o fato dos pais consumirem pornografia ou o conteúdo das revistas. De qualquer forma, havia um alívio perturbador: não estávamos sozinhos. Os mais velhos também gostavam de sacanagem.

Isso não tinha como estar certo.

Houve a fase das fitas em VHS. Cinemas estavam fora de cogitação, não existia venda de filmes pornô em bancas de jornal, e a única possibilidade era o aluguel. Aí também havia um esquema de suborno, conluio com os balconistas e acordos remunerados para que maiores de idade nos alugassem os filmes, que depois assistíamos em grupo, suando frio, com almofadas no colo e a porta trancada. (O grande hit da época era a insaciável Traci Lords, que causou escândalo e quase pôs abaixo a indústria pornô norte-americana em 86, quando se descobriu que a bela debutou no cinema aos quinze usando uma identidade falsa.)

Hoje em dia tudo é mais fácil. A sacanagem romântica da minha pré-adolescência, quando conseguir uma mísera revistinha era uma aventura planejada por dias, foi substituída por uma oferta ilimitada de filmes e imagens via internet, onde nada é proibido.

E aí é que mora a nostalgia, em tudo o que há por trás de uma palavra que cada vez mais significa menos: proibido. Sob o risco de ser achincalhado como reacionário, este pornógrafo militante acha que o mundo, pelo menos no que diz respeito à sacanagem, sofre hoje de uma enorme carência de proibição.

Proibição e, claro, pêlos.

No meio da noite sinto fome e entro no único lugar aberto num raio de centenas de quilômetros: um bar no Boulevard St. Germain que, apesar de escuro, fedorento e mal freqüentado, serve comida quente durante a madrugada e ali peço um pedaço de carne que chega mal passada, e é pimenta e sangue de boi que uso para dar gosto às batatas fritas em grandes garfadas ao som de uma cantora brasileira que se lamenta para a dúzia de pessoas no bar, e é uma alegria triste a daquela gente, brasileiros festejando encabulados entre lésbicas de meia-idade e um casal de franceses desajeitados, e, pairando sobre todos, uma adolescente negra sambando com a fúria e a graça que elas usam para sambar, e no balcão, alheios ao resto, um japonês de terno e uma menina tatuada jogando um jogo eletrônico idiota com as mãos dadas e a menina pareceria atraída pelo bem arrumado acompanhante, apesar da diferença de idade e de estilos ao se vestir (seria uma puta?), e ao lado deles dois crioulos com roupas largas e pernas longas falando uma língua que não seria capaz de reconhecer ou reproduzir, e também um sujeito estranhamente agitado, se olhando nos espelhos que cobrem as paredes, com um cigarro apagado pendurado no lábio inferior, fazendo o gesto de quem tira algo do bolso como quem saca uma arma, e, talvez insatisfeito com sua performance, o homem repetiria infinitas vezes o movimento, e ainda haveria outras mesas com vagabundos tristes, o careca rude por trás do balcão, e eu, de ombros abaixados, comendo carne crua e bebendo chope quente.

É quando ela me liga chorando e diz que alguém morreu.

É um interurbano, não a ouço bem. Quem morreu? Falo alto, com um tom grave na voz: chamo a atenção de todos que viram o pescoço na minha direção. O bar inteiro prende a respiração, a música pára, a menina interrompe o passo.

Foi o peixe. Quem morreu foi o peixe. Ela estava trocando o aquário de lugar e o aquário caiu no chão. Ou estava trocando a água e o peixe estava num copo e foi o copo que caiu, e um caco de vidro entrou bem no meio do peixe, no coração do peixe. Não entendo bem. O fato é que, entre soluços, o peixe morreu: o peixe que estava em casa enquanto eu não estava, sendo cuidado e cuidando dela.

Ela diz que é muito má e que cuidou mal do peixe.

Eu queria dizer para ela que esse peixe teve a melhor sorte do mundo. Se acreditarmos que os peixes têm uma memória de três segundos (ou seis, as fontes divergem), toda a existência do bicho foi de uma felicidade celestial. As lembranças que ele, o peixe, levou para o outro mundo foram simplesmente as dela. E nada mais.

Ela se aproximando do aquário. Ela através do aquário vestindo um short curto, talvez calcinha e camiseta: um segundo. Ela dizendo para o peixe sobre como iria levá-lo de um canto ao outro da sala, fazendo alguma graça com o nome do peixe, usando as mãos espalmadas para abraçar o aquário: dois segundos. Depois, uma leve vertigem e o bicho morrendo protegido pelo calor da sua mão direita: é o fim.

Depois que desligo o telefone, a música recomeça, a gente volta a conversar e a dançar seu passo melancólico e inexplicável. Voltamos a agir com indiferença, eu e o mundo que me cerca. Em aquários diferentes, sempre.   

Termino a noite fria andando por ruas desertas, com profunda inveja do peixe morto.

Cercado por 15 inseparáveis amigos, fui ao Bar Luiz no último sábado. Todos pedimos chope. Foram 15 calderetas do escuro e uma do claro – a minha, brilhando solitária na mesa. Para acompanhar, algumas porções de kassler com salada de maionese. Na contramão do savoir vivre vigente nos cadernos semanais que orientam a família brasileira a comer bife de soja, leite de rã e sorvete de alface, preferimos, os 15, estômago pesado e chope cremoso, especialmente numa tarde quente de dezembro. E o chope do Bar Luiz ainda é o melhor de todos, apesar dos garçons às vezes emburrados e do preço alto.

Rápida digressão sobre o chope: o moço pode servir sem colarinho que a gente bebe. O boteco da esquina, que ainda vende chope mal tirado, tornou-se instituição atacada pela sociedade. Injustiça. Existe coisa mais prática e moderna do que chope num pé-sujo? Por que, de repente, essa exigência absurda do chope assim-assado? Coisa de gente que se diverte a sério. Antes de sair de casa, consultam um guia de botequins, vestem bermuda cáqui e chapéu panamá. Só falta cheirar o chope para sentir o seu ”bouquet” e vaticinar: ”hum, aveludado este Brahma safra semana passada!”. Conosseurs de botequim cheios de frufru, chatos de sandália de couro.

Estava calado (os 15 conversavam sem parar) olhando as dezenas de fotos em preto e branco penduradas nas paredes art déco do Bar Luiz. Sempre que vejo fotos antigas e desbotadas, me ocorre que todos em breve passaremos para o outro lado da moldura. Eu, os garçons, os leitores da crônica e cada um dos seis bilhões de habitantes deste planeta. Registrados compulsivamente através de fotografias e vídeos, fotologs, fitas VHS, blogs ou seja lá o que for, estaremos todos mortos em menos de uma centena de anos. Para as pessoas que ocuparão a terra (este apartamento, o elevador, a rua, a mesa do bar) depois de nossa partida, seremos apenas fotos como as da parede e, dando sorte, algumas poucas frases. Nos computadores, seqüências intermináveis de zeros e uns formando cores e formas, letras e palavras armazenadas. Cada um de nós, sem desvio ou retorno. Direto para o fundo esquecido da gaveta. Se o leitor duvidar, peço por favor que recite, de cor, o nome de todos os seus bisavôs e bisavós.

A esperança é virar foto de bar, o que não é pouco. Ou então dar a sorte de ganhar a celebridade de um Jesus Cristo, Cervantes ou Shakespeare. Mas isso também não anda fácil – a fama passa cada vez mais rápido. A maioria de nós terá que se contentar com alguém, gerações adiante, encontrando nossas fotos à venda numa loja de quinquilharias, ou arquivadas num diretório perdido de uma página da internet. Essa pessoa verá o sujeito atravessando a rua e vai perguntar ”o que será que esse cara estava pensando naquela manhã?”. Nós não responderemos.

Segundo a Harper’s Magazine (dados irresponsavelmente colhidos no Google), a proporção entre mortos e vivos é de 15 por um. Ou seja, já viveram neste planeta cerca de 90 bilhões de pessoas. Quinze mortos para cada um de nós. Os mortos estão em proporção maior do que a dos ratos (dez por habitante, quatro milhões nascendo a cada dia), mas bem menor do que a dos insetos (200 milhões por habitante, sendo um milhão só de formigas). Piedoso com as moças, não divulgo o número de baratas. Animais de estimação também parecem ser uma praga, por mais que eu simpatize com eles: para cada ser humano há 45 gatos e 15 cães – o mesmo número de mortos.

De qualquer forma, os mortos ocupam mais espaço.

Resolvi tirar uma chinfra com os meus 15 colegas de chope no Bar Luiz. Interrompi a conversa e comecei a enumerar essas e outras estatísticas utilíssimas para todos nós. Até o garçom chegou perto pra ouvir que cada ser humano pode se considerar representado por 69 sóis na Via Láctea, nove galáxias e 0,0166 crianças de rua. Ou seja, para cada grupo de 60 humanos (cinco times de futebol, 12% do total da Câmara dos Deputados em Brasília, cinco rodadas do Big Brother Brasil e uma sala de aula de cursinho pré-vestibular) há uma criança passando fome no mundo. Para esta criança, mil sóis perdidos em cada uma das nove galáxias que correspondem ao seu naco de universo. Foi aí que deixei todo mundo deprimido e o chope escuro bateu mal. Meus 15 amigos pediram, em uníssono, ”a saideira e a conta!”. Desapareceram e voltaram para trás das molduras.

 

O cronista sempre acaba sozinho no bar.

Na madrugada de cada dia trinta e seis, uma nuvem de gafanhotos egípcios entra pela janela aqui de casa. Os insetos sempre me levam a um passeio panorâmico sobre o Centro. Do alto, espio as janelas acesas nos últimos andares dos arranha-céus. Dou um rolé pela cúpula da Candelária. Rasantes na escuridão triste da Praça Tiradentes. Sobre a Avenida Mem de Sá, vejo os sobrados como caracóis afundados na areia. À distância, tudo fica diferente. Os postes retorcidos se transformam em cacos de vidro, brilhando sobre o asfalto molhado das ruas. E as esquinas são como rabiscos tortos cortando o casario da Lapa.

Sobrevôo os Arcos que, em algumas horas, serão acordados pela bagunça dos moleques correndo atrás do bonde, gritando malucos enquanto o carro ganha o trilho, rangendo e soltando faísca. Mas, durante a madrugada, os Arcos aproveitam e dormem, fazendo de conta que não vêem o que acontece nos seus trilhos e abaixo deles.

É para lá que os insetos me levam. Pousam suavemente meus pés ao chão e me abandonam na calçada. Eles abaixam suas antenas e ficam por ali, meio perdidos e cabisbaixos, entre as donzelas de salto alto na porta dos palacetes e a galera esquentando nos botecos, ouvindo a música que escapa do Circo Voador. O passeio me deu fome, e eu sigo decidido a abrir a porta de madeira do restaurante ali perto.

E abro.

Sempre que aterrisso no Nova Capela, a primeira coisa em que boto os olhos é a mulata. Ela sorri um sorriso daqueles grandes, enquadrada numa foto sobre o balcão de mármore e a estante das bebidas. Abaixo dela, garrafas de todos os quilates, troféus dourados, condecorações presas às paredes e uma grande estufa cheia de cabritos, abacaxis, cachos de banana e latas de azeite.

A verdade é que não existe no mundo retrato mais elegante e nobre. Não há olhar mais altivo do que o da Mulata do Capela, e pode incluir na conta as moças penduradas nas paredes dos Palácios de Versailles, Buckingham e Oswaldo Cruz.

Nós, sob o olhar e o sorriso do retrato, envelhecemos e esquecemos. Todos os dias, criamos lembranças que são implacavelmente destruídas por outras. É um processo irreversível e acelerado. Ali mesmo, no Capela, travei debates intensos, celebrei amizades e comi caldos antológicos, como o de palmito, que a casa não oferece mais. Esqueci tudo. No Capela, amores foram declarados, cartas foram rasgadas e muita gente entrou no banheiro e nunca mais saiu. Ninguém lembrou. Nós, sob o olhar do retrato, vamos deixando de ser. Mas o retrato, não. Ele é um instante capturado numa máquina do tempo. Essa máquina tem o formato de uma moldura e viaja na velocidade da luz. Dentro dela, o tempo não existe. O tempo não passa na foto.

A Lapa não mais haverá, engolida por si mesma, e a Mulata do Capela continuará sorrindo. Os jornais publicarão suas últimas manchetes, e ela nem aí. É a Mulata do Capela que os escafandristas da música do Chico irão encontrar quando tudo isso aqui estiver definitivamente submerso. A Mulata do Capela, pendurada na parede solitária do balcão em ruínas, abençoando a todos silenciosamente.

Uma vez perguntei ao Cícero, o garçom do quadrante leste, quem era a mulata. Ele fez cara feia, mas acabou contando. Disse até o nome da moça.

No dia seguinte, acordei sem lembrar.

À minha frente, vejo a construção geométrica dos operários.

Os operários que esculpiram seus traços e talharam a curva dos seus lábios. Que abriram com enxadas os veios do seu mármore. Na sua pele, deixaram objetos esquecidos: uma pá, um martelo, um toco de madeira. Sob a sucata, cópias do seu rosto impressas em relevo nas vigas do seu corpo.

Reconheço esse território com os dedos, como um cego que lê o evangelho em braile.

Abaixo das suas sobrancelhas, agora grossas, e dos cílios longos, órbitas verdes guardam por trás da íris esquadrões aéreos, tigres à espreita, relógios d’água. A lua mingua nos seus olhos russos, e o tempo desses relógios é desonesto e obsceno.

Você bebe mais um gole de suco, mexe nos cabelos escalados como cipós pelos pequenos operários suicidas. Eles caem, tentam se agarrar nas suas sardas e finalmente se atiram no vazio com sorrisos no rosto. Você não sabe, mas tudo em você é ritual. Se você soubesse, eu diria: você é uma criminosa. Você é má.

Eu? Sou um monstro, uma aberração infame, e você teria febre se pudesse se olhar como eu a vejo.

Como vejo em você os operários e seus capacetes iluminados abrindo seus jardins em flor. Os operários que com ferramentas arcaicas construíram a mulher de ângulos impossíveis que é você. Os operários que a tocaram por dentro das artérias, que se plantaram até os joelhos no seu concreto. Que esculpiram seus ossos de marfim, as portas que dão para quartos onde jamais entrarei. Que ergueram o grande vão e a grande ausência que é você. Que mastigaram e sulcaram a madeira das suas sombras. Que escalaram sua boca entreaberta, pendurados em andaimes na galeria iluminada que se abre para onde você for.

Os operários da sua infância triste, escondida e chorosa sob a mesa da sala de jantar.

Os operários que abriram paisagens e ilhas rochosas em mares plúmbeos dentro de lugares inesperados do seu corpo: o cotovelo rugoso, os sovacos pálidos, os espaços sagrados entre os dedos dos pés. Os operários que conhecem o horizonte que você guarda como um segredo.

Que inveja tenho desses operários. Da sua existência rápida e gloriosa, plantando simetria na desordem que é você.

Mas os operários são ciumentos como eu. Sei que um dia, quando você estiver dormindo, vão escapar do seu corpo e me matar, como quem pisa num galho podre.

Se eu tiver sorte.

 

Cinco espécimes machos da raça humana bebiam cerveja na calçada de um boteco. Barbudos e sujos, vestiam trapos e chinelos de dedo. Viravam copos por horas, e horas por muitos copos. Bradando frases de efeito, apertavam mãos em quedas de braço: injúrias, arrotos e cusparadas entre si. Palitavam os dentes, coçando os bagos e levando os dedos ao nariz. Eu era um deles. Na mesa ao lado, o mesmo número de fêmeas confraternizava, pirilampantes. Em trajes da última moda, tomavam o choppinho de fim de tarde. A cada meia-hora, uma nova rodada, sorvida com delicadeza e mindinhos flutuando pelo ar. A lua se debruçava sobre a mesa fofinha das mocinhas, estudantes universitárias gesticulando com altivez e queixinhos empinados.

Os homens-sapiens (semi-erectus, já numa hora dessas) arremessavam perdigotos uns aos outros e conversavam sobre os bastidores dos jornalões, mexericos do mercado editorial e novos lançamentos da indústria fonográfica. Sobre a poesia de Vinicius de Moraes. Sobre a decadência eterna do Mengão e os recentes triunfos do esquadrão canarinho. Sobre bebedeiras passadas e as muitas que virão. Sobre o filme novo do Woody Allen. Sobre política e terrorismo. Sobre amores passados e a vida e a morte das estrelas.

A mesa das moças, percebi esticando o ouvido direito, só tinha um assunto. Não era poesia, fofoca, cinema - muito menos a corrupção do erário. As moçoilas, animadíssimas e mui finas, divagavam sobre ereção. Pareciam ter bastante experiência no assunto, pois correlacionavam diferentes biótipos e características pessoais dos espécimes estudados aos critérios de avaliação – tamanhos, formatos e cores. Uma delas acredita que homens magros são mais avantajados do que os gordos. Outra disse que altura não tem nada a ver com o negócio – o maior pipiu que botara na boca fora de um rapaz baixo e fracote. Falavam com liberdade indissoluta sobre o tema, gesticulando em voz alta, elegantérrimas. Ao perceber o colunista penetra, não fizeram por menos: aprofundaram-se no assunto, explorando os meandros do órgão genital masculino, suas veias, sabores, diâmetros e detalhes que fariam corar Paulo César Pereio, Jesse Valadão e o Analista de Bagé.

Voltei os olhos para meus amigos imundos, cheirando como o mictório do maracanã, e me insuflei de pureza. Subitamente, éramos todos donzelas virgens do século XVII, rapunzéis românticas, esquentando os cotovelos na janela à espera de um príncipe encantado montado em um cavalo branco – e não ele, o príncipe, um cavalo branco, notem a diferença. As fêmeas-erectus haviam nos roubado, naquele preciso momento, a rédea da canalhice. Jamais ouvi uma mesa de homens num bar comentando, daquela forma, a profundidade, textura e elasticidade de um canal vaginal. O máximo que acontece é, apreciando as transeuntes, um “olha só que gostosa” emitido por um bebum antiquado no balcão do bar. Nada comparável ao requinte e grau de detalhe da narrativa das nossas vizinhas de mesa.

Um dos meus amigos ogros, jornalista e pai de dois filhos, contou entre arrotos e largos goles de chope um babado ocorrido mês passado: dois adolescentes foram detidos por ter filmado a transa de um deles com uma colega de escola, menor de idade. É apenas um de muitos casos do gênero que ainda virão à tona. A menina foi filmada sem saber enquanto tentava dar prazer ao pubescente membro de um dos garotos. Os pais da menina vieram a público dizer que o rapaz estragou a vida da filha, que a menina terá que se mudar para uma cidade menor, e que ficará marcada e traumatizada para sempre. Não chegaria a tanto. Há quem diga: pior para o pobre idiota que filmou e divulgou a história. O tiro do moleque saiu pela culatra – além de não saber trepar, ganhou fama de pouco avantajado e, pelo que dizem, está jurado de porrada. É um prego sem noção e um bobo, típico da idade.

O que tem a ver o caso dos garotos com as meninas do meu bar? Fundamentalmente: nada e tudo. Nos próximos anos, acredito que o destino da reputação dessa menina, tão temido pelos pais, vai provar quem, no final das contas e dos chopes, são as novas donzelas do século.

 

 

A senhora fez questão de pintar a cara do moleque e vestir o pobre com uma fantasia de índio do Saara. O pai apressado saiu com a malcriação da criança a tiracolo. O casal de jornalistas de cultura achou que ir ao bloco poderia descontrair. É impossível discutir a relação no meio da bagunça. Almoçaram comida japonesa no shopping em Botafogo e foram, soturnos no ar-condicionado do carro francês, ouvindo jazz. Os estudantes de sociologia alcoólatras se juntaram em cinco, com chapéus coloridos, e foram para a frente do primeiro carro de som, fazendo uma coreografia sem propósito que as senhorinhas logo imitaram. Senhores bagaceiros vestidos de mulher também apareceram, barbudos e elegantes. Tudo gente de bem: trabalhadores, mendigos, pensionistas e ambulantes. Famílias espiaram pela janela, contestes. Os ritmistas levaram seus instrumentos. Violinistas e cavaquinistas também, mas ninguém os ouviu – como é triste a sina dos instrumentos de corda no bloco. Os puxadores levaram seus gogós. Os vendedores de bebida levaram alívio. O sambista de final de semana levou sua barriga para passear no bloco. A madame do 503 levou um cachorro preto para passear no bloco. O pitboy levou seus bíceps e tríceps para passear no bloco. As estudantes de comunicação da PUC levaram suas bundas e peitos para passear no bloco. O bucha levou seu ar cabisbaixo para o bloco, e ficou olhando para as estudantes de comunicação da PUC, mas nada fez. Os chatos levaram sprays de espuma. E tome cerveja na lata.

O bloco começa com uma aglomeração, inicialmente incompreensível, de algumas pessoas com camisetas iguais, poças d´água e vendedores de cerveja. Aos poucos, a esquina fica cheia de gente, e, depois, a calçada e a rua. Vem o caminhão de som e, sobre ele, puxadores e meia-dúzia de arrozes. Em tempo, chega a bateria, sob a batuta implacável do seu diretor. Dependendo do bloco, a bateria é cercada e se leva a sério, com coreografia e, dando mole, até paradinha. Quando não é assim, qualquer gringo entra e toca chocalho, atravessando a marcação. Dizem que se aparecer alguém de sangue ruim quando a canjica estiver cozinhando, ela perde a consistência. Com o samba é mais ou menos assim: pinta um mané qualquer tirando onda de ritmista e tirando o ritmo da bateria, que o samba desanda como receita de papinha.

A multidão virou uma esquina e encontrou sua passarela numa rua transversal. Durante o ano, o endereço é chinelo. Mas quando chega o grande dia, até lugar na janela do terceiro andar custa caro. Tudo para ver o povo se espremendo lá embaixo. Inclusive o cronista. No meio do suadouro, acabei encontrando o macaco com asa e bico de tucano – aquele da primeira crônica. Voava baixinho, enrolando a letra do samba a plenos pulmões. Bebia água, para espanto da rapeize. Depois de dois beijinhos estalados, filosofou: “Cuenca, eu não falei? Começou de novo! O carnaval é o eterno recomeço…” E foi logo interrompido por um arrastão de foliões e carregado para dentro da muvuca.

Festejavam por eles mesmos e pelo resto do mundo: doentes, desabrigados, famintos, e também pelos que não gostam de carnaval. Peripatéticos, deram a volta no quarteirão e veio a noite. O surdo estremecendo os postes, a lua refletindo o brilho do suor no corpo das meninas. Ninguém arredou pé: pai apressado, casal de jornalistas de cultura, estudantes de sociologia alcoólatras, senhores bagaceiros vestidos de mulher, trabalhadores, mendigos, pensionistas e ambulantes, sambista de final de semana e sua barriga, madame do 503 e seu cachorro preto, pitboy e seus bíceps e tríceps, estudantes de comunicação da PUC e suas bundas e peitos, bucha e seu ar cabisbaixo, chatos e seus sprays de espuma, macaco com asa e o cronista. Amanheceu, anoiteceu e amanheceu de novo. Todos se alimentando de salsichão, cachorro-quente e picolé. Casais se formaram, se desencontraram e se encontraram de novo. Crianças perdidas foram encontradas e as encontradas perderam-se de novo. O samba empolgou, atravessou e voltou a andar.

Lá pelo segundo mês de folia, depois de milhares de voltas no quarteirão, esbarrei de novo com o macaco com asa e bico de tucano, que insistia numa insólita dieta de água mineral com gás e picolé de coco. Ao lado da bateria, ele me abraçou e, coladinho no ouvido, cochichou: “Você ainda vai viver essa vida uma vez… E dezenas, e centenas de vezes! Cada dor e cada alegria, cada pensamento e cada suspiro, cada beijo e cada fora, cada chopinho e cada dor de dente, ainda voltarão a você, todos na mesma seqüência e na mesma ordem. E também o batucar dos tamborins, a letra do samba e essa folia, e também este instante e eu mesmo. Presta atenção, rapaz! Você deve levar a sua vida de forma que queira vivê-la outra vez. Pois, de qualquer forma, você viverá novamente. Se liga!” E voou, enigmático, deixando um rastro de picolé derretido sobre os prédios da Rua das Laranjeiras.

O céu pálido e desbotado, sem variação de tonalidade. Tinta quente derramada sobre a nossa cabeça. Na praça, famílias passeando entre pombas e ambulantes, vendedores de churros e paçoca. Perto do escorrega, um mendigo fuma e joga as cinzas na própria boca – a língua como cinzeiro. A criançada se castiga e levanta poeira, nem aí.

Ao longo da praça, algumas palmeiras imperiais sobrevivem – por enquanto ainda mais altas do que os prédios. Também há um supermercado e duas grandes galerias, São Luiz e Condor. Esta última perdeu seus cinemas para a fé (dizem). Poucos botecos, uma farmácia, lanchonete e os correios. Nas calçadas, transeuntes disputam espaço com camelôs vendendo relógios, pulseiras, brinquedos, revistas velhas e, com destaque, os últimos lançamentos em CD e DVD. A Igreja Matriz ao fundo, vigilante. O Largo do Machado sempre com aquele jeito de antes de ontem.

Alheio ao entorno, um pequeno grupo de pessoas está plantado em frente a um caminhão verde, onde há um pequeno palco. Uma legião de panfleteiros agita bandeiras de candidatos a vereador e prefeito enquanto meia dúzia de senhoras observam a apresentação. Algumas seguram sacolas. Uma veste calça de lycra – sinal da modernidade. Outra bate palma, animada. Diante do show, um casal de mendigos evolui numa passarela improvisada de pedras portuguesas. No mais, compõem a audiência: um cão dormindo, passantes curiosos, um turista de câmera digital e mocinhas de colégio. O público disperso da apresentação do Nelson Sargento na praça, às cinco e qualquer coisa da tarde da última quarta-feira, era de quarenta pessoas – mais para menos do que para mais.

Diz a história que, quando o Rio de Janeiro foi fundado, o Largo do Machado era um pântano conhecido como “Lago do Suruí” – um tipo de molusco. A imagem do genial baluarte do samba, oitenta anos recém-completados, cantando e tocando violão para uma praça quase vazia é emblemática. O samba embalando a dança dos miseráveis e o sono do cachorro me fez pensar que os tempos lodosos da cidade estão mais perto do que gostaríamos. Sem falso moralismo: nada há de errado no fato de um artista popular apoiar um candidato a vereador e ganhar (ou não) um cachê para se apresentar sob sua bandeira. Afinal, se algum candidato dessa disputa eleitoral tivesse um terço da dignidade do Nelson Sargento, eu teria um bom motivo para votar amanhã. Mas, infelizmente, não tenho.

Além dos problemas naturais do pântano, sujeira, sapos e cipós atravancando a passagem, acredito que um artista dessa importância só deveria tocar em palcos à sua altura. Um show do Nelson Sargento é coisa para teatro de três mil lugares com fila na porta e menina chorando do lado de fora. Para piorar, havia uma Kombi no canto da praça, disputando eleitores e decibéis com o carro de som do sambista. Falta de consideração. Não resisti e, depois de terminado o show, fui tirar satisfações com o almofadinha militante que estava com o microfone da concorrência na mão. “Você sabe quem era aquele cara cantando ali?”. O militante não respondeu.

(Rapidíssima digressão sobre o militante. Quais serão os segredos inescrutáveis que passam pela cabeça do militante, essa figura misteriosa e sazonal da nossa vida política? O que move o militante? Ideologia, alguns trocados ou promessa de emprego? Temo que o militante seja como a moça que tem muitos ex-namorados e sempre está pensando no próximo. Fim do passeio.)

Volto e digo ao militante da praça: “É o Nelson Sargento! Você devia respeitar o homem e ligar esse som em outro lugar”. O militante respondeu que tinha licença e exaltou-se: “Eles não têm licença para fazer isso aqui. Eu tenho!”. Pouco me importam os partidos, a permissão ou não da prefeitura para o carro de som, mas, licença por licença, o Nelson tem a poética, e com essa ninguém mexe.

Na praça enlameada, os mendigos sorrindo não dançavam simplesmente o samba que saía dos dedos e da voz grave do autor. Dançavam o Brasil, que agoniza mas não morre, como o samba – e como todos nós, às vésperas de mais uma eleição vazia. “Samba / Agoniza mas não morre / Alguém sempre te socorre / Antes do suspiro derradeiro / Samba / Negro forte e destemido / Foi duramente perseguido / Na esquina, no botequim, no terreiro / Samba / Inocente pé no chão / A fidalguia do salão / Te abraçou te envolveu / Mudaram / Toda sua estrutura / Te impuseram outra cultura / E você não percebeu” – Agoniza mas não morre (Nelson Sargento)