O céu pálido e desbotado, sem variação de tonalidade. Tinta quente derramada sobre a nossa cabeça. Na praça, famílias passeando entre pombas e ambulantes, vendedores de churros e paçoca. Perto do escorrega, um mendigo fuma e joga as cinzas na própria boca – a língua como cinzeiro. A criançada se castiga e levanta poeira, nem aí.
Ao longo da praça, algumas palmeiras imperiais sobrevivem – por enquanto ainda mais altas do que os prédios. Também há um supermercado e duas grandes galerias, São Luiz e Condor. Esta última perdeu seus cinemas para a fé (dizem). Poucos botecos, uma farmácia, lanchonete e os correios. Nas calçadas, transeuntes disputam espaço com camelôs vendendo relógios, pulseiras, brinquedos, revistas velhas e, com destaque, os últimos lançamentos em CD e DVD. A Igreja Matriz ao fundo, vigilante. O Largo do Machado sempre com aquele jeito de antes de ontem.
Alheio ao entorno, um pequeno grupo de pessoas está plantado em frente a um caminhão verde, onde há um pequeno palco. Uma legião de panfleteiros agita bandeiras de candidatos a vereador e prefeito enquanto meia dúzia de senhoras observam a apresentação. Algumas seguram sacolas. Uma veste calça de lycra – sinal da modernidade. Outra bate palma, animada. Diante do show, um casal de mendigos evolui numa passarela improvisada de pedras portuguesas. No mais, compõem a audiência: um cão dormindo, passantes curiosos, um turista de câmera digital e mocinhas de colégio. O público disperso da apresentação do Nelson Sargento na praça, às cinco e qualquer coisa da tarde da última quarta-feira, era de quarenta pessoas – mais para menos do que para mais.
Diz a história que, quando o Rio de Janeiro foi fundado, o Largo do Machado era um pântano conhecido como “Lago do Suruí” – um tipo de molusco. A imagem do genial baluarte do samba, oitenta anos recém-completados, cantando e tocando violão para uma praça quase vazia é emblemática. O samba embalando a dança dos miseráveis e o sono do cachorro me fez pensar que os tempos lodosos da cidade estão mais perto do que gostaríamos. Sem falso moralismo: nada há de errado no fato de um artista popular apoiar um candidato a vereador e ganhar (ou não) um cachê para se apresentar sob sua bandeira. Afinal, se algum candidato dessa disputa eleitoral tivesse um terço da dignidade do Nelson Sargento, eu teria um bom motivo para votar amanhã. Mas, infelizmente, não tenho.
Além dos problemas naturais do pântano, sujeira, sapos e cipós atravancando a passagem, acredito que um artista dessa importância só deveria tocar em palcos à sua altura. Um show do Nelson Sargento é coisa para teatro de três mil lugares com fila na porta e menina chorando do lado de fora. Para piorar, havia uma Kombi no canto da praça, disputando eleitores e decibéis com o carro de som do sambista. Falta de consideração. Não resisti e, depois de terminado o show, fui tirar satisfações com o almofadinha militante que estava com o microfone da concorrência na mão. “Você sabe quem era aquele cara cantando ali?”. O militante não respondeu.
(Rapidíssima digressão sobre o militante. Quais serão os segredos inescrutáveis que passam pela cabeça do militante, essa figura misteriosa e sazonal da nossa vida política? O que move o militante? Ideologia, alguns trocados ou promessa de emprego? Temo que o militante seja como a moça que tem muitos ex-namorados e sempre está pensando no próximo. Fim do passeio.)
Volto e digo ao militante da praça: “É o Nelson Sargento! Você devia respeitar o homem e ligar esse som em outro lugar”. O militante respondeu que tinha licença e exaltou-se: “Eles não têm licença para fazer isso aqui. Eu tenho!”. Pouco me importam os partidos, a permissão ou não da prefeitura para o carro de som, mas, licença por licença, o Nelson tem a poética, e com essa ninguém mexe.
Na praça enlameada, os mendigos sorrindo não dançavam simplesmente o samba que saía dos dedos e da voz grave do autor. Dançavam o Brasil, que agoniza mas não morre, como o samba – e como todos nós, às vésperas de mais uma eleição vazia. “Samba / Agoniza mas não morre / Alguém sempre te socorre / Antes do suspiro derradeiro / Samba / Negro forte e destemido / Foi duramente perseguido / Na esquina, no botequim, no terreiro / Samba / Inocente pé no chão / A fidalguia do salão / Te abraçou te envolveu / Mudaram / Toda sua estrutura / Te impuseram outra cultura / E você não percebeu” – Agoniza mas não morre (Nelson Sargento)