Em São Paulo, dentro de um quarto de hotel no topo de uma pirâmide. Minhas janelas, que não abrem jamais, são azuis. Refletem-se no prédio do outro lado da rua, também espelhado. Nele, centenas de sombras encaram monitores, arrastam-se de um lado ao outro do andar, como formigas. Colo o rosto no vidro temperado: sou uma minúscula mancha distorcida impressa no arranha-céu de escritórios, separado de mim, janela e hotel, por uma avenida. Além da minha pequena cópia, a fachada também reproduz, numa perspectiva cubista, anúncios coloridos, telas cinéticas de cristal líquido, edifícios em construção e, quando anoitece, o traço brilhante e vermelho dos faróis que vão, o rastro branco e oblíquo dos que chegam. Abaixo, fora do ar-condicionado e do cômodo sem cheiro, uma procissão interminável de automóveis disputando espaço com motociclistas em bando. Surgem repentinamente: uma nuvem de poeira e barulho metálico abrindo passagem.

Hoje cedo, o motorista disse: são uns loucos, irresponsáveis. Morrem dois por dia. Ou três. A cidade é uma máquina de moer carne, freou áspero. Engarrafamento.

Indiferença bruta e soberana das catedrais de ferro, vidro e concreto, debruçadas sobre avenidas e marginais, de salões imensos no térreo onde, às costas dos vigilantes de terno, jorram fontes d’água, crescem jardins e até palmeiras. Pobres das palmeiras da Faria Lima, que sobre a copa enxergam um teto branco e morrem sem conhecer o céu.

Há muita educação e polidez: o paulista é um solícito respeitador de filas. Pede licença. Boa tarde, senhor. Vejo o formalismo que permeia tudo como uma tentativa cega de manter algum tipo de ordem, urbana ou mental. Não deve ser fácil. Os olhos pedem uma fuga qualquer. Não há. Andando a pé, traçando uma linha reta em qualquer direção, fico imaginando quantos dias levaria para chegar a algum horizonte perfeito que cortasse o céu em duas partes exatamente iguais. Não há horizonte possível em São Paulo. Apesar de tantas linhas retas, não há simetria, as perpendiculares são tortas, cicatrizes sinuosas riscadas por um cirurgião extravagante.

Pois que se invente o horizonte.

E, sob tamanha falta de espaços, talvez você se encontre como quem mete a mão nas próprias vísceras, descobrindo unhas sujas de sangue e lama entre os labirintos de asfalto, esqueletos de concreto e hieróglifos pichados em muros. Que se invente o horizonte sob o relinchar de helicópteros, carros de luxo e lotações apinhadas. Na falta de contato visual dentro do ônibus, em filas mudas, museus, centros culturais, palácios de metal, nos rostos de gente vestida de preto, punks, góticos, engravatados, retirantes, pobres, molambos, manos e na infinidade de japoneses que surge de todos os lugares, como pombas brancas e caladas.

Caminho pelo centro velho de São Paulo, alienígena de mim mesmo, e sinto toda aquela gente, som e concreto como uma capa de gordura que me separa da realidade, do toque gelado e viscoso da terra e do mar. Mas e se a verdade estiver nos ângulos fechados? Entre os carros que circulam como moscas, os pneus mascando asfalto, cuspindo poluição? E se estiver oculta sob o sentimento constante de que há algo de fantástico e inexplicável acontecendo todo o tempo (e de que não estou participando disso)? E se a realidade for a lua ocre, apagada? O céu curto, a turba solitária? Se isso tudo é real, o que então me afasta da realidade?

Em São Paulo, continuo me sentindo como uma mentira. Por isso, adoro a cidade. Aqui, não existo.