Foi num dia daqueles em que o centro fica vazio e o pessoal do escritório joga papel picado pela janela. Final do ano e do expediente. Você apareceu, sorriu meia dúzia de amigas e sentou na mesa ao lado. Bebeu cerveja de garrafa e comeu amendoim, cabelo preso num coque. Depois de você ali, a cidade calou. No meio do povaréu, pude ouvir seus dentes quebrando os amendoins, goles descendo pela sua garganta, cílios se roçando num piscar de olhos.
Sua chegada condenou toda aquela gente a morte instantânea.
Naquele momento, fiquei sabendo de tudo. Que iríamos nos conhecer em cerca de meia hora, quando eu me levantasse para tentar falar bonito, entre goles e nossos olhares de espadachim. Sabia que treparíamos poucos dias depois como dois desesperados, pais de filhos natimortos, nos enlevando como quem precisa. Fiquei sabendo, olhando para você na outra mesa, que nossa persistência mútua seria comparável a teimosia de ditadores, cães loucos e donas de casa. Que nosso amor arrancado a fórceps seria perdido para ser encontrado depois, reencontrado depois, muitas vezes, quantas vezes fosse preciso.
Sabia que brigaríamos como nunca fizemos com ninguém antes, e nos xingaríamos de nomes que você teria vergonha de contar até para si mesma. Mas depois faríamos as pazes, doentes de paixão. Bêbados, dançando e rindo do que só nós dois poderíamos entender. Trocando a noite pelo dia, trancados por semanas em casa, ouvindo música, vendo filmes, dormindo abraçados. Sabia que, rapidamente, ganharíamos intimidade: banheiro de porta aberta, beijo sem escovar os dentes, você fazendo café de calcinha. E sabia que você diria, alguns meses depois, que eu era o melhor amante que você já teve. E que nunca mais iria querer outra pessoa.
Antes de você terminar a cerveja do seu copo, eu já sabia como iria gostar de ouvir todas essas mentiras.
E como iria te retribuir com outras.
Mesmo assim, apesar e por causa disso, ficaria ciumento e obsessivo como um psicopata de cinema. Faria perguntas insidiosas sobre seu passado, ex-amantes e namorados. Sobre quem te levou para a cama, e quem te deixou lá. Descobri que ficaria com taquicardia e mãos trêmulas ao imaginar você com outra pessoa, no futuro ou no passado. Descobri que você iria despertar o meu melhor e o meu pior, em proporções igualmente febris. E que também iríamos superar isso.
Você me ensinaria, com seus modos calados, a viver melhor. Tomar banho lavando as costas, comer várias vezes por dia, pensar menos. Você iria combater meu impulso suicida contra o nosso amor. Não sei se você chegou a descobrir isso ainda, mas não é que o amor simplesmente acabe. O amor é morto em dias claros como esse. Carrega em si a semente desse assassinato. Às vezes o crime é culposo. Em outras, cheiramos a fumaça que sai do buraco da bala com prazer dissoluto. Mas o normal é que seja morto corriqueiramente, como um tropeço. Com você seria diferente. Descobri, só de olhar o jeito do cabelo cair na sua testa, que você lutaria até o fim para que eu não esquartejasse o nosso amor. Você iria conseguir.
Sabendo disso tudo, foi como se não tivesse escolha. Deixei uns trocados na mesa, levantei e lancei um último olhar na sua direção, já quase virando a esquina. Em alguns meses, esqueci dos seus olhos verdes e, com eles, tudo que descobri, em não mais que cinco segundos, num dia daqueles em que o centro fica vazio e a gente do escritório joga papel picado pela janela.
O amor é morto em dias claros como esse.
Março 26, 2008 at 12:12 am
Tenho a certeza que este é um dos melhores textos que já li. A maneira simples com que você descreve os sentimentos das pessoas é severamente verdadeira. No dia em que li o texto estava ouvindo Moonlight Mile dos Stones e sempre que ouso essa musica lembro do texto… tenho a revista guardada…rs
Parabéns pelas publicações.
Abraço
Danila
Julho 24, 2008 at 5:54 pm
Que texto gostoso de ler! Parabéns.
Agosto 7, 2008 at 4:39 am
Caro J.P.,
Depois de ler esse texto seu, quase estou atacando com golpes vorazes de pá as raízes do meu sonho de ser escritor. Nunca vou escrever como você escreve, cara! Você é surreal, um Jedi, um Ronaldinho Gaúcho (desculpe o exemplo, você é mais objetivo e prolixo tb) ante um Walter Minhoca desses por aí… Entende? Como se o ponto alto do meu repertório fossem umas dezenove embaixadas, com sorte, contando as que batem na parede! Gostaria de conversar contigo, saber o que te motivou escrever, como você começou, o qque você lê. Não é tietagem, é efeito dos seus escritos, cara. É como ouvir Bob Dylan e ir dar uma cagada. Não dá. Você fica ali matutando, “como esse cara fez isso?”. Sensacional,meu camarada. Grande abraço!
Agosto 22, 2008 at 4:46 pm
Nossa, simplismente adorei. Muito boa a linguagem que utiliza no seu texto. Parabéns.
Agosto 28, 2008 at 11:43 pm
Adoro ler seus textos semanais na Megazine.
Ao ler este, compreendi melhor o do Homem-polvo publicado em 19/08 ultimo.
Parabens pelo seu estilo
dramatico com toques de uma leveza que me prendem do inicio a fim.
Dezembro 2, 2008 at 6:15 pm
Rapaz,muito bom mesmo.Te conheci na Fliporto desse ano.
Abraço.