Queria escrever uma crônica para os que passaram um carnaval triste. Para os que acordaram na quarta-feira cinzenta, sozinhos outra vez, com gosto de semana passada na boca. Para os que, inicialmente tímidos e depois desesperados, viram seu amor-próprio desmoronar à medida da seqüência inevitável de rejeições, de tocos, de não-me-toques, de olhares gélidos lançados pelas colombinas, indiazinhas, diabinhas e bailarinas.
Uma crônica para o exército de reserva dos tamborins, para os coadjuvantes fora de quadro, para os que perseguiram o encontro e, mesmo abandonando o que conheciam por critério, acabaram a folia com um zero a zero estampado no placar e na testa. Para todas as moças que se perfumaram e fantasiaram, e dançaram com samba no pé, e distribuíram olhares, e viraram o pescoço, e imaginaram tanto… E nenhum único vem cá meu bem. E nada.
Escrever uma crônica dedicada aos pierrôs que descobriram seus amores nas mãos do alheio, a boca aberta em outra, fazendo gargarejo com suas lágrimas. A todos os que flagraram a desejada beijando lividamente um anônimo arlequim, entre centenas de corpos em movimento, sob uma tempestade de confetes e a batucada acelerada de um bloco que, a partir dali, ganhará um sentido de vertigem insuportável. Uma crônica aos que sofreram as insídias do amor durante o carnaval nublado, e que tudo viram com olhos metafísicos, numa percepção aguda da realidade que o latão de cerveja quente jamais vai mitigar.
Aos bêbados que choraram confissões às sombras nas paredes. Aos que lamberam a calçada, beijaram o poste, abraçaram o gelo-baiano. Às mulheres que por aí esqueceram calcinhas e partes irrecuperáveis de si. Aos foliões reflexivos que, no meio do refrão, pararam e se perguntaram: “afinal, o que diabos estou fazendo aqui?” Ao ritimista que atravessou, levou um pescotapa do mestre e foi expulso da bateria no meio do desfile. Aos que se sentem distantes de tudo, mesmo no meio de uma muvuca atroz no Terreirão do Samba da Praça Onze. Aos que foram barrados na porta do camarote da cervejaria. Às passistas de corpo esculpido carregando as flechas de tantos olhares sabendo que nenhum, nenhum deles, realmente a quer de verdade – pois elas, como todas as mulheres, são outras que nenhum, nenhum deles, jamais conhecerá.
Aos melancólicos senhores e senhoras com os cotovelos apoiados nas janelas de Laranjeiras, a quem o carnaval faz lembrar certa pureza esquecida, de bailes em Paquetá, de lança-perfumes e marchinhas de uma cidade que não mais existe – de uma vida que se aproxima do fim. Aos persistentes infelizes por vocação que lotaram salas refrigeradas de cinema, livrarias e cafés tentando fingir que o carnaval não existiu.
Uma crônica que faça uma homenagem aos rebaixados na passarela, que preste tributo aos que tiveram o samba derrotado, que dê consolo aos turistas que foram assaltados e esculachados na cidade maravilha. Um alento aos fracos que desistiram da multidão do Bola, que tiveram medo da Rio Branco noturna do Cacique, que afrouxaram a garganta no único momento que poderia lhes salvar do carnaval triste. Uma crônica que tire um pouco do peso daqueles para quem o término do carnaval é sinônimo de nada mais restar, é caldo de fim de feira às margens do precipício, é tristeza e medo pelo que virá no resto do ano. Porque o ano, depois do carnaval, é resto. É o pouco que sobra.
Acabou, e sempre acaba cedo demais, chega rápido o último dia. Depois, só no ano que vem. Já acabou: as cinzas de quarta-feira caem sobre nossa última dança. Os ambulantes arrastam seus carrinhos, as baterias recolhem suas peças, o eco das notas do samba derradeiro flutua sobre nós. Sob o grave de um surdo solitário, acaba o carnaval. Já limpam as ruas, os carros já vêm. Calam os subúrbios escuros. Calam as avenidas fechadas. Calamos nós. Acabou. Logo amanhece, e já não seremos mais quem fomos. Como agora, sem carnaval, vamos nos justificar? E até o próximo, o que será de nós?
Maio 22, 2008 at 12:55 am
Olá!
Poderias publicar também suas cronicas em outras linguas. Acabei de ver no blog globo um trecho em francês e achei bastante interessante.
Quero ser uma traidore! =)
Buenas!
Junho 10, 2008 at 2:06 am
Oi. Gostei da crônica. Mais do começo dela, na verdade. Quase parei de ler porque foi me encomodando e eu não tinha entendido que tava sendo encomodada por um troço que se chama verdade (seja lá qual definição se dê a esse termo). rs. É que reconheço o que descreveu, em mim, a minha volta, e meu deu angústia.
Enfim, gostei.
Valeu.
Junho 18, 2008 at 2:18 am
Meu amigo voce me faz relebrar varios carnavais! Talvez seje o presso que eu paquei por ser feio e de naziz Grande!
Mas as vez me amigo a solidao nos dar a oportunidade de nos refletir e apreder a dar valor aos nossos parceiros(Namorada or nomorado) de sex opost or nao.
Temos que ter muito cuidado com as palavras nset World !
Janeiro 12, 2009 at 2:26 pm
Adorei!
Engraçado essas andanças que a gente faz por esse mundo virtual e acaba achando a coisa certa quando procurava um tanto de coisas erradas.
Estou procurando mais sobre você. Já adorei o que achei!
Bjos
Março 4, 2009 at 8:15 pm
[...] O Carnaval já passou (*) Arquivado em: Simple Stories — Cynthia @ 8:15 pm (*) texto baseado em “O Carnaval já passou” de João Paulo Cuenca (meu ex-professor!) para ver o original clique aqui: http://algumacronica.wordpress.com/2008/04/11/carnaval-ja-passou-o-globo-14022008/ [...]
Março 6, 2009 at 5:15 pm
Caro João Paulo,
Uau! Adorei!
Você sempre mexe comigo, mas desta vez doeu.
Terminei de ler a crônica com a face úmida. Na verdade, sem ao menos me conhecer cutucou a ferida à fundo. Esse é o seu dom, escrever fazendo o leitor sentir cada palavra, às vezes rindo outras chorando, mas sempre se transportando a algum ponto de reflexão profunda.
TE ADORO! Um beijão…
Daniela
Maio 26, 2009 at 2:01 pm
Talvez tudo seja de fácil resolução: sugiro que a turma dos frustados, abandonados “não quistos”,mal sucedidos no carnaval avancem pela quarta feira. A todos os que não se deram bem até a terça, tomem as ruas na quarta. Todos os que não brilharam façam uma mudança no calendário e instituam a “quarta dos cinzas”! Eu vou junto!
Abraço.